quinta-feira, 17 de setembro de 2015

PARADOXOS IDEOLÓGICOS: JESUS E AS IGREJAS CRISTÃS EVANGELICAS - PARTE II

Abordando agora sob algumas questões envolvendo a moral cristã e o comprometimento com a vida na sua importância. De modo particular, observa-se uma quimera, controvérsia muito séria na atitude moral de Jesus, e isso porque Ele institui o inferno e tomando como base ideológica de que Cristo, aí estando Ele em sua forma humana, segundo o cristianismo, incompreensível, é que Jesus em sua forma densamente humana, tem a faculdade de esperar no castigo eterno. Certamente, Jesus como é exposto nos Evangelhos, tinha fé no castigo eterno, e nós encontramos, frequentemente, uma cólera, como punição legal contra os que não aceitavam aos seus mandamentos, fazendo com que essa atitude seja difundida de modo convencional entre pregadores, mas que, de certo modo, se afasta da dignidade perfeita. Vemos que nos Evangelhos, Cristo disse: “Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação ao inferno?” (7). Dito isso as pessoas que não simpatizavam com suas teorias. Existe, por apropriado, o escrito familiar acerca do pecado contra o Espírito Santo: “Quem falar contra o Espírito Santo não será perdoado, nem neste século nem no futuro” (8). Esta escrita acarretou inefável desgraça no mundo, porquanto que toda a natureza de indivíduo idealizava possuir pecado contra o Espírito Santo e entendia que não seria perdoada nem neste mundo, nem no que se cogita. Realmente não parece que uma pessoa com dom natural, merecimento, predicado moral ou intelectual com grau correspondente de bondade em sua natureza teria imposto no mundo temores e terrores dessa condição. Ainda realizando uma analogia dos parâmetros sobre esses tipos paradoxos de moral contra a vida, na qual as religiões cristãs evangélicas baseiam-se nos textos bíblicos, podemos citar outros em que Cristo diz ainda: ―O Filho do homem enviará os seus anjos, e tirarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes‖ (9). Essa expressão corrobora continuadamente versículo após versículo e a nosso ver indica que a alusão às lamúrias e ao ranger dos dentes causa certo gozo na contemplação dos prantos e da produção áspera com o atrito dos dentes. Nós todos nos lembramos, com certeza, do texto acerca das ovelhas e das cabras; de como no segundo advento, a fim de apartar as ovelhas das cabras, assim Ele dirá às cabras: ―... Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno...‖ (10). E Ele continua por versículos afora: “E irão eles para o castigo eterno” (11). ―Se o teu olho direito te faz tropeçar, arranca-o e lança-o de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que seja todo o teu corpo lançado no inferno. E, se a tua mão direita te faz tropeçar, corta-a e lança-a de ti; pois te é melhor que se perca um dos teus membros do que vá todo o teu corpo para o inferno‖ (12). Necessitamos proferir que na nossa avaliação, um ensinamento de exaltação ao fogo duradouro como arma de revanche para a correção do pecado, estimula mandamentos de crueldades. É uma teoria que impõe crueldade na humanidade e debela famílias a um martírio bárbaro, e o Jesus das boas novas, se pudermos receber como os seus seguidores o representam, teria, seguramente, de ser indicado, em parte, o responsável por isso. São estas as boas novas para os que não concordarem com suas ideologias, hoje representadas pelas igrejas evangélicas.

PARADOXOS IDEOLÓGICOS: JESUS E AS IGREJAS CRISTÃS EVANGELICAS

Existem algumas formas que merecem ser observadas e analisadas sob os parâmetros apresentados pelas ideologias de Jesus e os oferecidos pelas religiões cristãs evangélicas. Quimeras ou fatos? Podemos fazer uma síntese analógica que iniciaremos no teor da chamada justiça, que é a seguinte: proferem que a existência de Deus é imprescindível a fim de que exista justiça no mundo. No ambiente do universo que distinguimos há grande injustiça e, não é diferente que os bons sofram e os maus prosperem, e a gente nem imagina qual dessas coisas é a que mais incomoda. Porém, para que exista a suposta justiça no universo de forma completa, temos de cogitar a existência de uma vida futura para atender a vida aqui na Terra. De tal modo, dizem que deve existir um Deus, e que deve existir inferno e céu, a fim de que, no final, venhamos a encontrar a justiça. Esse é um contexto muito curioso. Ao analisarmos o argumento sob a ótica científica, articulamos: afinal de contas, conhecemos este mundo apenas. Não sabemos do resíduo do universo, embora, tanto quanto podemos raciocinar referente às probabilidades, diríamos que este mundo compõe um admirável padrão e, se aqui existe injustiça, é muito provável que haja injustiça também em outras partes. Imaginamos que recebemos um cesto de laranjas e que, ao abri-lo, observamos que todas as laranjas que acima se encontram estão estragadas. Diríamos então: as de baixo devem estar boas, para compensar as de cima. Diríamos: é plausível que estejam todas estragadas. E é exatamente isso que uma pessoa de alma científica diria referente ao universo. Diria: deparamo-nos neste mundo com muita injustiça e, como ao que isso se menciona, existe razão para se crer que o mundo não é conduzido pela justiça. De imediato, tanto quanto podemos perceber isso abastece um assunto moral contra a deidade e não a seu favor. Sei, certamente, que os argumentos intelectuais sobre os quais vos estou falando não são, na verdade, de molde a estimular as pessoas. O que realmente leva os indivíduos a acreditar em Deus não é nenhum argumento intelectual. A maioria das pessoas acredita em Deus porque lhes ensinaram, desde tenra infância, a fazê-lo, e essa é a principal razão. (Russell, 1965, pág. 25). Imaginamos ainda que a subsequente e mais poderosa razão disso é a cobiça pela segurança, uma condição de impressão de que existe um irmão mais velho olhando pela gente. Isso realiza um papel muito profundo, influenciando o anseio das pessoas quanto a uma fé em Deus. Admitindo então tais ditos, chegamos aos pontos em que desacreditamos que se possa concordar com a sabedoria exímia e com a bondade magistral de Cristo, tal como são narrados nos Evangelhos. Acolhida a história bíblica tal como ela nos apresenta, deparamos com alguns fatos que não nos parecem muito sensato ou prudente. Por um momento, seguramente Jesus imaginou que a Sua segunda chegada aconteceria em nuvens de glória antes da morte de todos os habitantes que estavam vivendo naquela ocasião. Há vários textos que o evidenciam. Essa era a fé dos primeiros admiradores, estabelecendo o embasamento de uma grande parte dos ensinamentos morais de Jesus. Quando Ele disse: ―Não andeis inquietos pelo dia de amanhã‖ e outras coisas idênticas foram, na maioria, porque estimava que o seu segundo advento significasse muito em breve e que, por isso, os argumentos mundanos não tinham importância. Diz Ele, por exemplo: ―Não acabareis de correr as cidades de Israel, sem que venha o Filho do Homem‖. E adiante: ―Entre aqueles que estão aqui presentes, há alguns que não morrerão, antes que vejam o Filho do Homem no seu reino‖ — e há uma porção de lugares em que é bastante claro que Ele acreditava que a Sua segunda vinda ocorreria durante a vida dos que então viviam. (Russell, 1965, pág. 27).

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

QUIMERAS E FATOS DE UMA REALIDADE CRISTÃ EVANGELICA

Com raras exceções, a religião que um ser humano acolhe é aquela da comunidade em que ele vive isso é, o que o torna evidente que a influência do ambiente foi o que o levou a aceitar a referida religião, neste caso, uma igreja evangélica. É verdade que os escolásticos inventaram o que declarava ser argumentos lógicos da prova da existência de Deus, e que tais argumentos, ou outros de teor semelhantes, foram aceitos por muitos filósofos e teólogos eminentes, mas a lógica a que esses argumentos apelavam é um tipo de lógica aristotélica antiquada, hoje rejeitada, praticamente, por todos os lógicos, exceto os que são católicos. Bertrand Russell constrói a ideia de que a questão da veracidade de uma religião é uma coisa, mas o fato de sua utilidade é outra, diferente. Está tão firmemente persuadido de que as religiões são nocivas, como o estar de que são falsas. O mal causado pela religião é de duas espécies: uma, dependendo da sorte de crença que se julga deve ser dada à mesma, e, a outra das doutrinas particulares em que se crê. Quanto à espécie de crença, considera-se virtude ter fé. (RUSSELL, 1965, pág. 14). O mais notório é que, Deus é responsável pelas ações ou omissões, de tudo que acontece no mundo, com toda a dose de desumanidade que isso supõe. Outra é que não se vê a necessidade, sugerida por Jesus, de pedir a Deus tudo, que se faça a sua vontade assim na terra como no céu e se é verdade que Deus não tem ou não se impôs limitação alguma em exercer tal vontade mediante intervenções diretas de seu poder. E se ele o faz alguma vez, por que não sempre? É de admirar que tenha existido tão pouca oposição contra as violações perpetradas a mercê de interesses eclesiásticos. Um dos motivos para isso parece ser a fé generalizada de que a religião evangélica, hoje em dia, é afetuosa e compreensiva e que as perseguições são episódio do ocorrido de outrora. Este é uma quimera (6) perigosa. Apesar de muitos líderes religiosos serem, indiscutivelmente, amigos verdadeiros da liberdade que admitem modos de pensar e, ainda, partidários comprovados da separação entre a Igreja e o Estado, infelizmente, existem outros que, se pudessem, incumbiriam às perseguições e, de fato, o fazem, quando podem.

domingo, 11 de maio de 2014

O HOMEM RELIGIOSO CAUSA A IMPRESSÃO DE NEGLIGENCIAR SUA VERDADEIRA VIDA

O homem religioso causa a impressão de negligenciar sua verdadeira vida, sua vida terrena; parece estar fora do ritmo cíclico vital, palpitante, na expectativa de que venha o além. Assim a religião se apresenta como refugio dos que se sentem demasiado fracos ou temerosos para sustentarem a luta pela existência. (RIESENHUBER, 1972, pág.13) (5). "A única instância capaz de realizar no homem uma relação pessoal com Deus é a liberdade". (RIESENHUBER, 1972, pág.107). Na liberdade, o ser humano decide desde o centro de sua pessoa, face ao princípio absoluto do bem, no qual se oculta à exigência de Deus sobre todo o seu ser. Porém, ao mesmo tempo, a decisão deve possuir também certo grau de consciência explícita, que só torna possível mediante o encontro com o mundo. De acordo com o autor, o ato livre, no qual o ser humano é no mais alto grau, ele mesmo, inclui, portanto elementos do mundo que constituem o material e a compreensão concreta da sua decisão (Riesenhuber, 1972). Podemos notar um fator totalmente inverso aplicado pelas religiões cristãs que no momento de adesão do ser humano a Deus e no seu apelo na fé, o ser humano se abre sem reservas, confundindo com liberdade, desde a raiz de sua pessoa, isto é, nas profundezas de sua singularidade individual até a sua totalidade do seu ser, utilizando-se de suas exigências e repreensões como justificativa a fim de submeter a Ele e ao aceitar a doutrina cristã, o indivíduo admite que os outros lhe interpretem o sentido de sua vida para além da experiência que ele mesmo teve. A religião cristã evangélica expressa por tanto apenas seu pensamento em formas de práticas religiosas, não suportando a tensão existente entre o absoluto buscado e sua manifestação esperada no mundo, constituem apenas tentativas de projeto e moldura de ações sacramentais. A religião Cristã Evangélica é habitualmente enaltecida por ter abolido o sacrifício humano. Mas apenas substitui o sacrifício humano sangrento por sacrifício de outro tipo, ao invés de corporal, introduz o sacrifício psíquico, espiritual, que em verdade, não na aparência, mas no fato e na realidade é um sacrifício humano. Por isso pessoas que só se prendem a aparências creem que a religião cristã introduz no mundo algo essencialmente diverso da necessária aos seres humanos. Dado o caso que Deus se manifeste no mundo, deve sua revelação ser buscada pelo homem, precisamente no outro homem, porque ninguém a possui pessoalmente. Isto corresponde à tendência do homem, que anseia por Deus, como por exemplo, no amor, dá-se conforme as análises da experiência, em geral, na dimensão intramundana. (RIESENHUBER, 1972, pág. 145).

domingo, 13 de abril de 2014

A BASE DA REFLEXÃO

A obrigação de acatar a natureza humana, na medida em que nossos impulsos e desejos constituem o material do qual deve ser feita a nossa felicidade. É desnecessário oferecer aos seres humanos alguma coisa obscura
analisada como "bom", precisamos dar-lhes algo que ambicionem ou de que careçam, se almejarmos colaborar para sua felicidade.
A religião cristã parece diminuir o significado do mundo e da tarefa humana, assim se dá também a impressão de descuidar do aspecto corporal do ser humano, sua dependência dos sentidos e sua alegria de vida plena. Interessa-se a religião apenas pela alma, ou se muito, pelo espírito alheio. Para as religiões cristãs evangélicas, a vida propriamente dita parece começar depois da morte, e a morte já deve ser antecipada na vida terrena pelo martírio continuo.
A base da nossa reflexão não é um fenômeno isolado, um objeto ou uma experiência humana determinada, mas o fato universal, evidente de que o ser humano é capaz de fazer experiências e de encontrar algo diverso dele mesmo. O ser humano vive no mundo, para ele tendem suas aspirações, abrangente pelo seu conhecimento, toma posição em face dele com o sentimento e o desejo, ao contrário, a religião cristã influi sobre ele pela sua ação determinada por imposição. O principio de dificuldade é que o ser humano depende essencialmente do mundo sem que, entretanto possa diminuir da sua própria essência, prognosticar ou produzir o seu estado concreto, a saber, o seu ambiente com as pessoas, coisas e acontecimentos. Logo faz parte da constituição essencial do homem estar exposto de modo aberto, receptivo, aquilo que na sua forma concreta não lhe é essencial nem necessário em si mesmo, fato inadmissível pela religião cristã. Na linguagem da religião cristã evangélica a crença em Deus e o amor a Ele não são possíveis para quem primeiro assegura a sua autonomia, procurando, em seguida, talvez oferecer-lhe fé e amor, como obra própria.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Segundo José Saramango

As religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens; que, pelo contrario foram e continuam sendo causa do sofrimento inenarrável, de matanças, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem em um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana (...). A maioria dos fieis de qualquer religião não somente finge ignorá-lo, mas se levanta furiosa e intolerante contra aquele para quem Deus não é mais do que um nome, nada mais do que um nome, o qual, por medo da morte, lhe dê um dia e que viria a dificultar nossa passagem para uma humanização real (...). Por causa de Deus e em nome de Deus permitiu-se e justificou-se tudo, principalmente o pior, principalmente o mais terrível e cruel. (SOBRINO, 2007, PÁG. 176).

O PAPEL E A INFLUÊNCIA DAS RELIGIÕES NA VIDA DAS PESSOAS




Durante as investidas das religiões cristãs evangélicas pela busca por uma vida virtuosa, surgiram várias e variadas concepções, entre elas, a verdade é fabricada ou encontrada? Não submergindo o trabalho a esta questão, porém, de maneira inevitável deixar passar despercebido, pois a religião cristã está alicerçada neste pilar, sendo alegado como fator para uma mudança de vida, acalentando a ânsia de encontrar sua essência como centelha divina. Aos poucos essa busca modifica a vida ingênua do buscador para uma vida para aparentemente real e absoluto, fazendo com que o ser humano seja lançado para além de si mesmo a procura de Deus. A labuta sem controle, que há no ser humano, de retornar ao seio de sua matriz é legitimo, mas, ao mesmo tempo, torna-o vulnerável à malignidade dos prestigiadores espirituais. ―para alguns, a prisão é uma boa forma de impedir o crime, outros sustentam que a educação seria a melhor alternativa‖. (RUSSELL, 2009, pág. 43). Segundo Russell, não se pode provar que essa concepção de vida virtuosa esteja correta, pode apenas expô-las, eis o que pensa: ―a vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.‖ (IDEM).
Não há a necessidade de fazer das regras morais serem tais que virassem a ser inviável a felicidade natural. Existe mais a ser relacionado a favor da ―natureza‖ na área dos anseios humanos. Impor a um homem, uma mulher ou a uma criança uma vida que venha a fracassar seus impulsos mais intensos é tão cruel quanto perigoso; nesse sentido, uma vida em concordância com a natureza deve ser indicada, com algumas condições. Os desejos comuns são bons para os seres humanos quando satisfeitos pelas artificialidades. Contudo não há coisa nenhuma a pronunciar em amparo das formas de vida que são artificiais na definição de que são estabelecidas por uma ―autoridade religiosa‖ ou por necessidade econômica. A certeza sobre a realidade é de que tais formas de vida sejam, em certa medida, necessárias atualmente. A vida não careceria ser tão duramente fiscalizada nem tão sistemática. Nossos estímulos, quando não consistissem em efetivos destrutivos ou nocivos aos outros, precisariam se ratificáveis, ter cursos livre, necessitaria existir ambiente para a aventura. A obrigação de acatar a natureza humana, na medida em que nossos impulsos e desejos constituem o material do qual deve ser feita a nossa felicidade. É desnecessário oferecer aos seres humanos alguma coisa obscura
analisada como ―bom‖, precisamos dar-lhes algo que ambicionem ou de que careçam, se almejarmos colaborar para sua felicidade.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O MEDO AINDA É A BASE DA RELIGIÃO

Muitos homens conservam a soberba perante a sua própria forca, com certeza a mesma soberba deveria nos instruir a refletir genuinamente sobre o lugar do ser humano no mundo, pelo menos esse deveria ser um dos atributos da religião, principalmente as cristãs evangélicas, por ter como lema o amor ao próximo, porém sua catastrófica influência no comportamento humano, que lamentavelmente, no ocidente, onde após a sua reforma mantem-se reinante, leva a constante repressão de seus instintos e desejos, hoje se está diante desse homem distorcido, amputado de sua plenitude, fazendo com que se leve a demonstrar suas preocupações com a inconsciente abdicação de seus desejos instintivos. As pessoas adaptaram-se a mentir em rebanho, a aceitar como verdadeiras as construções falsas ou impossíveis de se comprovar, apenas por serem estas as construções aceitas pelo conjunto da sociedade, unicamente aceitável empiricamente.


É inegável que, muitas vezes, os seres humanos têm pensado em Deus para tê-lo a seu favor, contra outros deuses no âmbito religioso e contra seus inimigos no âmbito histórico. Na antiguidade, não havia Estado sem Deus nem Deus sem Estado. Deus era protetor dos grupos humanos, para isso se necessitava de poder e sua proteção incluía essencialmente a destruição do inimigo. ―O Deus dos exércitos‖, que esteve presente durante séculos na liturgia cristã, é uma clara confirmação disso. A religião gerou violência objetiva, muitas vezes com incrível crueldade, e a seu serviço gerou fanatismo subjetivo. A propósito, José Saramango, com extrema acidez, tornou a repetir como tese universal, em que consiste a essência histórica da religião.


As religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens; que, pelo contrario foram e continuam sendo causa do sofrimento inenarrável, de matanças, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem em um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana (...). A maioria dos fieis de qualquer religião não somente finge ignorá-lo, mas se levanta furiosa e intolerante contra aquele para quem Deus não é mais do que um nome, nada mais do que um nome, o qual, por medo da morte, lhe dê um dia e que viria a dificultar nossa passagem para uma humanização real (...). Por causa de Deus e em nome de Deus permitiu-se e justificou-se tudo, principalmente o pior, principalmente o mais terrível e cruel. (SOBRINO, 2007, PÁG. 176).

domingo, 20 de janeiro de 2013

O MEDO É A BASE DA RELIGIÃO


“A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim, tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos.” (RUSSEL, 2009, pag. 39). Em uma definição de como a religião cristã evangélica influência na vida das pessoas, nitidamente notamos como sua capacidade de interagir psicologicamente com o que há de mais frágil no ser humano e temido principalmente pelos cristãos, a aversão irreprimível que existe no homem, o medo. Esta é, principalmente, a base de todo o litígio: o assombro do mistério, o espanto da derrota, o medo da morte. O medo é a nascente da crueldade e, consequentemente, não é de se estranhar que a crueldade e a religião caminhem de mãos dadas. Isso porque o medo é à base dessas duas coisas. Assim vamos aos poucos compreendendo as coisas e refreando tais práticas se opondo contra a religião cristã, contra as Igrejas e contra a oposição de todas as antigas leis. A ciência pode ajudar-nos a superar este medo covarde com o qual a humanidade tem vivido por tantas gerações.

Focando na maior parte da população, existe no fundo de suas memorias, o medo obcecado de ruina, isso é confirmado quando nos referimos às pessoas que têm filhos. Os que têm maiores poderes aquisitivos receiam que embarguem os seus investimentos, os desprovidos temem o desemprego ou a perda da saúde. Estão todos comprometidos na busca compulsiva pela segurança e idealizam que isso pode ser obtido através da submissão à religião, igreja ou líderes evangélicos. Nos períodos de pânico é que a crueldade aparece em maior proporção e mais bárbara. Chegamos a uma analise que só a justiça concede o ato de dar segurança. Neste caso, a justiça é uma analogia ao prestígio dos direitos iguais de toda a raça humana, e o medo, como paixão irracional, e não como uma prevenção racional de alguma possível desgraça.

É preciso evitar que haja miséria; é preciso melhorar a saúde pública por meio da medicina, da higiene e de saneamento e de todos os outros métodos tendentes a diminuir os terrores que rondam os abismos da mente humana e surgem como pesadelos quando os homens dormem. (RUSSELL, 1965, pag. 79).

sábado, 29 de dezembro de 2012

A RELIGIÃO COMO PARADIGMA FILOSÓFICO II



“A religião tem a sua base na diferença essencial entre o homem e o bruto. Os brutos não têm religião.” (FEUERBACH, 1988, pág. 12). O animal está imerso no seu mundo. Sente-o, vive-o e o aceita. A relação do ser humano com o mundo, ao contrário, é problemática. O ser humano é um ser partido entre duas realidades. A neurose é a rebelião contra um mundo impessoal e implacável, que vive em um mundo, por parte de um ser, que vive em função da imaginação, filha do amor. Nas palavras de Camus “[...] o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é [...]”. O dualismo, ou mais precisamente a dialética, divide assim o mundo entre o que é (realidade objetiva) e o que deve ser (o ético), aquilo que é dado objetivamente como fato e as exigências antropológicas do homem que vive e sofre estes fatos e se organiza para sua superação. Tal conflito revela uma tensão entre a existência (o que é) e uma exigência ética de superação (a essência).
Tudo que o ser humano fala acerca de Deus, através da linguagem religiosa, nada mais é que uma confissão de suas aspirações e projetos. Deus só pode ser conhecido como homem. O discurso religioso, assim é a expressão-protesto da criatura oprimida, impossibilitada de se realizar dentro das condições dominantes. Sua realidade e seu projeto não desaparecem. Realizam-se simbolicamente nos símbolos religiosos, que se constituem num horizonte para a ação. Ele oferece os pontos de referência de um projeto político de liberação da essência. Quando, entretanto o horizonte se transforma em outro mundo, autônomo e independente, a verdade da religião se transforma em falsidade. O projeto político foi reduzido a um espaço e há um tempo já existentes. Torna-se inútil qualquer atividade de transformação. A consciência religiosa se traduz então em busca de salvação. Compreender a verdade da religião é compreender duas coisas. Primeiro, que se está condenado ao presente. A consciência o rejeita. A prática política pode transformar. Segundo, que as verdades da religião, escondidas em seu manto simbólico, poderão tornar-se verdades de amanhã.
Como a existência é tudo para o coração ela tem de ser infinita para a compreensão, assume os tributos da divindade. O que é religião?
 
O solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão publica dos seus segredos de amor. Como forem os pensamentos e as disposições do homem, assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais, será o valor do seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento. Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo. este é o mistério da religião: o homem projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo, assim convertida em sujeito. (FEUERBACH, 1988, pág. 14).


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A RELIGIÃO COMO PARADIGMA FILOSÓFICO



A religião toma para si todos os direitos exclusivos de Deus e usurpa (1) toda a glória da divindade e começa a administrar uma tríplice relação entre Deus, o homem e a igreja. Promessas de vida virtuosa e de vitorias, utilizando-se das práticas de moralidade, também estão incluídas no plano de Deus. Pelo menos, assim dizem uma grande parte dos líderes religiosos cristãos evangélicos, que por sinal, coincide com seus próprios planos individuais. Dois mil anos de conformidade converteram o subversivo Deus do deserto, Javé, em um Deus caseiro domesticado.
O debate no ambiente da Filosofia e da Teologia referente à religião é tão antigo quanto elas próprias. Partindo do conflito desafiador entre o conceito autônomo e crença gratuita, deram origem a princípios filosóficos e concepções teológicas. Contudo, se, no pretérito remoto, a religião pertencia aos temas centrais da reflexão filosófica, nos períodos contemporâneos e atualizados, o problema dos fenômenos religiosos é cada vez menos discutido. O homem atual elucidado foge dos assuntos religiosos. Pondera-se que tais coisas são designadas apenas ao púlpito ou unicamente são pertencentes ao domínio íntimo e reservado de cada pessoa. Com isso, abrem mãos de seu legado por direito em obter a sua livre religação com o sagrado entregando-lhes exclusivamente e permitindo que a igreja, no caso aqui, as cristãs evangélicas, decidam e influenciem como proceder no intercâmbio da mediação da suposta remissão.
E, assim, nascem os novos mediadores entre Deus e o homem — e não é Jesus Cristo, o homem—, e que são os que pensam representar a Deus e falar por Ele, sejam indivíduos, ou seja, a “igreja”, como mediadora horizontal dessa suposta “Graça”. “O problema é que a Graça só é verdadeira, quando vem de Deus pela Palavra e pelo Espírito, e atinge o coração, sem nenhuma necessidade de mediação sacerdotal humana de nenhum tipo, e, assim, gera a verdadeira liberdade em Cristo”. (CAIO FÁBIO, 2005, pag.78).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Juan Luis Segundo, o teologo dos pobres e do reino

O HOMEM DE HOJE DIANTE DE JESUS DE NAZARÉ II/I
Sinóticos e Paulo história e atualidades

CAP 3 – A proximidade do Reino

Pretendendo apagar de antemão um mal entendido hermenêutico entre ou “político ou religioso”, ao analisar as ideologias do Jesus histórico enquanto a sua trajetória percorrida na terra, Juan Luis Segundo, aborda neste capitulo questionamentos interessantes: “Como foi que um homem comum, sem autoridade religiosa alguma começou a interessar a seus contemporâneos”? E isso sem pregar a si mesmo e “como passou através da poderosa e complexa estrutura religiosa?”. Jesus com o seu discurso, afeta concretamente a vida do homem, fazendo com que houvesse um fim político e não aparentemente a fundação de uma religião. As palavras de Jesus de Nazaré tinham profundas sugestões políticas e não duvidosas, sendo que ele anunciou mensagem religiosa em forma de chave política e dessa forma manifestou a Deus. Quanto mais políticas de mudanças se revelava, toda afinidade com acondicionamento morais, espirituais ou religiosas fossem desprendidas dos grupos humanos tornavam-nos mais religiosos. É com estas duas hipóteses que o autor trabalha ao interpretar a mensagem global de Jesus de Nazaré.

Juan Luis Segundo questiona então sobre o que consiste este “Reino de Deus”, por que e para quem estabelecer uma boa notícia e por que esse “evangelho” (boas novas) exigia mudar de mentalidade? Utiliza então os textos sinóticos a Paulo apresentando uma interpretação sobre “bem-aventuranças”, tomando como base uma exegese da obra clássica de J. Dupont. Primeiro provavelmente o texto mais coerente vem narrado na 3ª pessoa “felizes os que...”, (como em Mateus) provavelmente a quarta bem-aventurança de Q (razão das versões divergentes de Mateus e Lucas), onde contêm uma predição de perseguição futura, sendo que isso não implicava aos discípulos sobre as dificuldades que haveriam de acontecer, mas Jesus declara a situação das bem-aventuranças para transformar em virtudes e a definir o que consiste esse “Reino de Deus” que chega com a articulação que para os pobres, Ele veio para mudar esta situação e por um fim, já que não há humanização nenhuma na pobreza e sim uma relação intrínseca e positiva entre reino e situação do pobre.

Juan Luis também apresenta controvérsias nos textos sinóticos, por um lado sabendo que os textos de Lucas foram escritos para os leitores helenistas diferenciados dos outros sinóticos, por assim saber que na igreja primitiva de Lucas, no livro de Atos, a partilha dos bens que nela se praticava não poderia haver necessitados, versão que contrapõe da existência humana: pobreza e riqueza e por outro, sendo ainda que a fonte Q, apesar de ser mais próxima de Jesus do que o atual evangelho, não é garantia de que Jesus tenha pronunciado as bem-aventuranças, além do termo “pobre” ser mais pronunciado pelos cristãos do que por Jesus. Então a quem cabe o direito a este Reino, Já que até os próprios discípulos continuavam explorarados pelas ideologias religiosas e por fazer eles partes deste grupo de “pobres”? Vale ressaltar que neste tempo o “Povo da Terra” (os judeus) tinham uma sociedade hierárquica não segundo a sua fortuna ou poder político, mas segundo critérios religiosos.

Como Jesus não podia pronunciar-se a todos ao mesmo tempo, escolhe então anunciar o Reino a quem perdeu tudo, são eles os publicanos, prostitutas, doentes e aleijados, os chamados “pobres” da época, os amaldiçoados e desprezados, ou seja, os pecadores, não que haja uma unificação de pobre e pecadores, mas, os pobres são pecadores, por ser marginalizados na sociedade de Israel, a estes Ele vem trazendo para uma realidade os projetos de Deus através da Sua revelação, com isso acontece uma mudança político-social-religiosa simultaneamente com a estratégia política do Reino correspondendo a uma nova notícia de Deus no caráter religioso contra a exploração do seu povo.








CAP 4 – As Exigência do Reino
I – Conversão e Hermenêutica

Com a imanência do “Reino de Deus”, se estabelece 03 (três) grupos: os “pobres”, ou seja, os destinatários a receber as boas-novas (os convidados naturais); os que ficam na sua companhia para enviar e pregar as boas novas (os discípulos), com isso à estratégia libertadora, política e conflitiva de Jesus cria-se um terceiro grupo, os que não se levam à compaixão, os opositores, aqueles aprisionados ao mecanismo ativo da opressão e que devem receber o reino com “ai” (os ricos, os justos e representantes religiosos). Para encontrar o significado da mudança de mentalidade ou “conversão”, que de acordo com Juan Luis segundo está representada nas polêmicas (parábolas) de Jesus (Joachim Jeremias reconhece 38), existe a necessidade lógica para compreensão das exigências em possuir este reino. A interpretação é que a boa noticia da chegada do reino não é o evangelho para todos e sim para o grupo dos pobres e mostra ao mesmo tempo, com todas as dúvidas que isso traz consigo a preferência que tem por eles, por um lado, e as profundas correções que deseja introduzir, por outro, na maneira que eles têm de idealizar a Deus e a religião.

Na definição de Juan Luis, Jesus utiliza-se de parábolas para legitimar seus ataques e a defesa dos que se opõe ao reino. O primeiro grupo de parábolas inicia-se com prevenção da chegada repentina do definitivo e destrói caluniosas garantias designada por uma elite social, econômica e política que exerce forte controle sobre o conjunto da sociedade, com isso sentem-se protegidos e confiantes de que este reino não os abalará, porém Jesus os desilude, de acordo com a interpretação sócio-econômica dos textos sinóticos de Lucas como as parábolas do rico insensato e do administrador infiel e outra conflitiva político-religiosa do ladrão noturno em Mateus. O segundo grupo coloca as bem-aventuranças entre uma oposição com o primeiro, ou seja, por se acreditar garantido pelo reino e coeso pelos que se tinham excluídos da pobreza, os marginalizados de Israel (pecadores), Jesus não os idealiza se são bons ou maus, mas suas parábolas os generalizam. As citações de várias parábolas para como: a do banquete, onde “todos” são convidados a sentar-se na mesa; a do filho pródigo, na qual o pai estava a aguardar a volta do filho que estava perdido e a da ovelha, que o pastor vai ao seu encontro, escrito nos sinóticos, desperta uma intensão de conflitos entre esses grupos e estabelece que para quem o reino e faz presente, para os que sofrem e estão perdidos. Juan Luis Segundo tem como base nos textos de Lc 15:7 e Mat 18:13 “a alegria no céu será maior por um pecador que se converta do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão”, ou seja, o estado perdido é a causa suficiente para a alegria paterna. Jesus é radical, mas restringi-se a mostrar dois grupos opostos e não detecta ainda o mecanismo como um grupo oprime o outro.

O terceiro grupo de parábolas é qualificado por inverso do juízo de valores dos dois campos que divide Israel: justos e pecadores e é ilustrada aqui através das parábolas de Mateus (21:28-32) sobre os dois filhos, onde o primeiro representa os pecadores, que mesmo rejeitando a ordem do pai as cumpre o e segundo filho representando os justos que mesmo dando vontade de obedecer descumpre a ordem paterna. O que se vê é um paradoxo de quem na verdade é justo ou pecador. Outra polêmica está no anúncio de Lucas 4:19 numa simetria do “ano da graça do senhor” com as “bem-aventuranças” onde relata a divisão por igual dos bens e da liberdade a cada cinqüenta anos entre todos os israelitas, recobrindo assim suas possibilidades humanas, porém a isso legitima a opressão penetrando inclusive nas mentes dos oprimidos, isso faz com que o resultado da divisão do trabalho seja atribuída a opressores e oprimidos como virtude de Deus, mas o Deus de Jesus não sente assim as coisas. Com efeito, aparece o critério com que Deus julga o que é pecado: não o contrario à lei, mas o contrario ao homem (pág. 197). É a preocupação e compaixão pelo homem, e em especial pelo que sofre que Jesus estabelece a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Para isso Jesus indica um aparato para destruição ideológica do opressor representado no quarto grupo de parábolas que versa sobre a chave hermenêutica, onde consiste para Jesus entender o homem e pôr a sua plena humanização para que agora o homem possa compreender que a conversão (necessidade da mudança de mentalidade) fundamental para aqueles que receberam as boas notícias não passa de privilégio e sim responsabilidade, “deixa de se crer fim para se sentir meio”. Juan Luis segundo descreve que para combater uma interpretação radicalmente errônea é preciso se endereça as três primeiras parábolas, a dos talentos, em Q (Mt 25:14-30; Lc 19:12-27), a do sal (Mc 9:50; Mt 5:13; Lc 14:34-35) e a figueira de Lucas (Lc 13:6-9). As três têm um elemento comum: a importância não está nunca nas coisas em si, no que pode ser objeto de posse, e sim numa funcionalidade, num fruto que dela se espera e para isso a parábola de Jesus no contexto de Lucas sobre o samaritano, o levita e o sacerdote referente àquele que caiu em poder dos ladrões é muito bem apresentada como o mais importante do que aquele que a quem se deve amar é aquele em que ama de verdade. A proximidade (sentido da frase do original “amar o próximo”) não é conseqüência da lei e sim premissa, consiste em uma inclusão mútua entre pessoas ou grupos. Jesus então estabelece uma radical mudança de mentalidade no sistemático ideológico religioso opressor introduzindo não só que as tradições legalistas substituíram os fidedignos mandamentos de Deus, mas que até estes não estabelecem a vontade de Deus geradora de valores morais. Deus não alcança ao homem com receitas morais pré-estabelecidas, ou seja, só quem tem intenções baseados no amor entende corretamente o sentido benéfico dos mandamentos a fim de converter suas vítimas em sujeitos conscientes e ativos na luta.


CAP 5 – As Exigência do Reino
II – Profetismo e Conscientização

A multiplicidade e a maneira indefinida do que se esconde sob o título da construção do “Reino de Deus”, faz com que exista uma contradição entre duas leis. Os pobres e pecadores são convidados por Jesus a fazerem parte do seu discipulado, já que o reino lhes pertence, em contra partida, oferece-lhe um julgo mais leve, ou seja, estarão sob a lei de Jesus que analogicamente confronta com “o que diz na lei” dos escribas e fariseus, fazendo uma exigência muito mais pesada: “eu, porém vos digo”, por este motivo os três sinóticos oferecerem depoimentos evidentes de um conflito político-religioso que opõe Jesus e os pecadores das autoridades judaicas.

Fazendo uma exegese dos textos de Marcos, Juan Luis abre hipóteses de trabalho ao se referir aos grupos já citados anteriormente. Primeiramente discursa sobre os chamados oprimidos e pecadores (povo) e deles nada é exigido diferente do grupo dos opressores. Conseguinte o outro grupo dos oprimidos e pecadores, agora colaboradores (os discípulos), Ele exigirá o que a missão sugere qualidades proféticas com toda prudência e compreensão. Porém o medo de Jesus é que seus discípulos não entendam as idéias de oposição Dele ou entendam apenas como religiosas, por este motivo Jesus oferece aos discípulos a parábola do semeador e do fermento (dado somente aos discípulos), encontrados nos sinóticos em chave política, já que esse era o meio utilizado por Jesus para o grupo de opositores do reino para que não se convertessem e fossem perdoados, sendo que os discípulos não necessitavam de conversão e sim abrir aos olhos para compreender o segredo do reino. Neste ponto é indispensável ressaltar que Jesus não estava dando aula de religião e sim desmascarando um conflito que se aparentava ser religioso pelos seus opositores, que visavam dominar e explorar outros homens, citado por Juan Luis Segundo da obra de Joachim Jeremias (Lês Paraboles”, pág. 16).

Jesus prepara a chegada do reino utilizando dois elementos na atividade em respeito aos pobres: com prodígio e métodos em instruir e praticar com clareza sua missão. Usou de poderes de modo muito especial para com os pobres e necessitados para anunciar de modo fidedigno a presença do reino de Deus, mas não sua vinda propriamente dita do reino e sim seu anúncio em forma de sinais, sinais estes que tem uma coerência entre valores do reino que chega e os valores que visivelmente procuram os interlocutores, prováveis adversários de Jesus com os milagres que eles solicitam, para que assim apareça na qualidade significativa o elemento decisivo na relação existente entre Jesus dos milagres e os pobres que é o segredo messiânico, ou seja, está mais relacionado com o trabalho de conscientização através dos milagres do que uma dúvida na consciência que Jesus tem de si mesma. Os sinais do reino são benefícios reais, incontestáveis enquanto tais para o que recebem. O segundo elemento é apresentado de forma a instruir as suas parábolas e Jesus mediante ao método messiânico pretende manter distância para poder ensinar e mostrar que ele é o sinal de alegria para as multidões de Israel








CAP 6 – A VINDA DO REINO

Neste capítulo Juan Luis Segundo determina com certa prudência dados mais fidedignos de que se dispõem os sinóticos e questiona, será que Jesus não se enganou ao anunciar que o reino de Deus já se tinha iniciado em sua geração? Ou pelo menos é essa a impressão, pois as desgraças continuaram com os “felizes os que...”, enquanto existiam mais famintos e os ricos continuaram a triunfar e multiplicar mais esfomeados até hoje, a menos que se trate de uma prosperidade e fartura ultramundanas. Juan Luis descreve que no livro de Mateus há citações de Jesus usando três expressões diferentes para reino, são eles: “o reino”, “o reino de Deus” ou “o reino dos céus”. O certo é que ao estar nesta época de busca pelo Jesus histórico deve-se fazer em excesso de perspectiva, pois nem mesmo a Igreja Primitiva não pode ao que parece fazê-lo de maneira distinta, embora com mesmo sentido.

E tomando esse rumo principia-se pela aparição de dois personagens, João Batista e Jesus, todavia o primeiro evangelho apresenta discordância entre ambos os profetas no sentido ideológicos do que significa concretamente essa proximidade. É o que se vê no contexto de Mateus e Lucas referente ao estilo de vida, onde um não bebe e não come, enquanto o outro, é beberrão e comilão; João prega a iminente manifestação visível da ira de Deus e é quem melhor representa a as idéias apocalípticas da época, combinando “reino de Deus”, juízo e catástrofe cósmica. O Jesus aparenta sintomas de individualidade na sua pregação de acordo com Mateus 5:2, assim sendo é que a proclamação de Jesus caracteriza-se como de uma alegria, a boa-notícia, relacionando o dia de Javé com a vinda do seu reino. Juan Luis Segundo dispõe de textos no livro de Lucas (3:11, 3:13 e 3:14) que entre os sinóticos é o único com versão detalhada do batista referente aos “frutos dignos de uma mudança de mentalidade”, onde é visto com muito mais realismo. A multidão: ele sugere a divisão de túnicas e alimentos; Aos publicanos: não exigir mais do que a taxa marcada. A uns soldados: não praticar torturas nem chantagens, contentai com seu soldo. Apontando assim a situação grupal de cada um e a sua conversão central. Conclui-se que Jesus foi muito mais político do que escatológico e era essa a necessidade dos dois grupos de Jesus, a instalação do reino de Javé do que o juízo apocalíptico, embora nenhuma imagem da por afirmada a presença atual do reino em forma completa sobre a terra, principalmente se analisar o tempo do verbo das bem-aventuranças, com exceção da primeira, as outras usam o verbo no futuro, além da ausência do verbo “ser” dos originais aramaicos.

Os homens colaboram com essa vinda e isso é o menos que se pode dizer quanto à intervenção que se exige deles, pois suas necessidades são compreendias no quadro global, porém a pergunta que Juan Luis Segundo faz é: esperou Jesus a chegada, durante sua vida, do reino de Deus com poder? De acordo com Juan Luis, para os exegetas atuais a resposta é afirmativa. Então baseando-se em três elementos relaciona a seguir. O primeiro situado nos três sinóticos “Em verdades vos digo: alguns dos presentes não sofrerão a morte até que vejam chegar o reino de Deus” (Mc 9:1); O segundo constituído por um pequeno apocalipse, também dentro dos sinóticos, que aparece com uma pergunta desconcertada dos discípulos pelos sinais e a resposta é: “a vinda do Filho do homem sobre as nuvens com grande poder e majestade” (Mc 13:26), porém os evangelistas acrescentam um paradoxo enigmático que por um lado ninguém sabe, nem os anjos, nem o Filho do homem, mas somente o Pai, o dia e a hora. Por outro, o tempo está tão próximo que Jesus pode dizer que em verdade eu vos digo, não passará esta geração antes que tudo isso aconteça. O terceiro elemento aparece ainda que não seja comum aos três sinóticos (pelo fato de Lucas, no intuito de extinguir o que lhe pareça desrespeito, o exclui) como um grito de surpresa e desorientação com que Jesus morre na cruz: “meu Deu, meu Deus, porque me abandonastes?” (Mc 15:34 e Mat 27:46).

Então conclui Juan Luis que o reino não chegou “com poder” enquanto durava a geração que escutou Jesus profetizar, mas de acordo com Paulo na sua carta aos Romanos, Jesus foi “constituído Filho de Deus com poder, por sua ressurreição dentre os mortos” (Rm 1:4), sendo assim é transparente a admissão que jesus esperou em vão durante sua vida essa irrupção com poder do reino de Deus, mas comprova que sua comunidade foi compreendendo gradualmente que com sua ressurreição dentre os mortos ela se tinha realizado. Jesus teve um destino humano, concreto e histórico, trabalhou com mãos de homem na construção do reino que empregou para nos revelar o Pai através da iminência concreta trazendo a marca de uma história que não volta atrás.

(7) Anexos da primeira parte
1 - JESUS RESSUSCITADO

Ficando o tema mais concentrado no livro “Cristologia” o vol. II/II desta série, a ressurreição de Jesus constitui um fato verificável da história da Igreja nascente. Porém inserindo no contexto do Jesus histórico, toma-se como instrumento os próprios evangelistas, que partindo da idéia em confiar que os discípulos de Jesus são sinceros ao narrarem terem visto Jesus depois de sua morte. A questão histórica da aparição do Ressuscitado concentra-se de todo relato Paulino, além de João que se une aos sinóticos. Comprova-se que as parábolas atribuídas a Jesus parecem indicar mais um ensinamento e assim estabelecer um novo grau de compreensão alcançado pelos discípulos (Lc 24:45-46). Porém esses têm dificuldades em distinguir Jesus no ressuscitado, prova de que a nova forma material não permitiu econhece-lo.

De fato o gênero literário dos relatos evangélicos das aparições é muito implícito, mas confirmam a fé existente e ai passa de “crer” a “ver”, ou seja, essa fé diante do escândalo da cruz, Jesus aparece ressuscitado, mas somente para aqueles que creram antes da morte de Jesus. É como se ecoasse em novo plano a advertência de Jesus “...convertei-vos e crede na boa-notícia”, apesar de não haver uma só que seja testemunha imparcial. As narrações sobre as aparições de Jesus não são históricas, mas isso não quer dizer que não sejam verdadeiras. Sua verdade é mais que histórica e depende, por isso da fé, é uma verdade sobre a história, pertence ao plano escatológico no qual se julga e verifica o sentido da história vivida.

Por isso diz-se que a realidade escatológica toca no ponto da existência histórica dos discípulos, aos lhes proporcionar experiências do resultado de opiniões diferentes que significavam, contra a morte e o nada, os valores pregados e praticados por Jesus. Tangencialmente não estabelece referência alguma a uma diminuição de importância significativa, refere-se, isso sim, ao sutil e oculto de sua entrada histórica.



(8) Anexos da primeira parte
2 - ALGO MAIS SOBRE A CHAVE

Chega o momento, também lógico, em que a chave política parece esgotar-se e apelar a outro tipo de interpretação para dar conta dos fatos. De acordo com os evangelhos, o conflito provocado por Jesus chegou a um ponto em que as forças pareciam tão equilibradas que, tanto um grupo quanto o outro, se temiam ou se previam a vitória do rival, por este motivo, de acordo com a tradução de Lucas (Lc 24:18-21), os discípulos esperavam a liberdade de Israel, se referindo ao poder que Jesus revelava, e isso era demonstrado por Jesus, porém, em favor da compaixão que ele tinha pela multidão para alimentá-los e não para dar estrutura mais estável. Juan Luis diz que apesar das incontestáveis urgências que se encontra em Jesus, sua ação interpretada em chave política, aponta muito mais para uma eficácia a longo prazo.

Dentro das suposições, é possível que Jesus pensasse ter muito tempo para continuar com sua política conscientizadora à longo prazo em favor dos pobres e do reino; é possível que contasse com uma poderosa intervenção do próprio reino para assegurar esse prazo. É ainda mais provável que fosse surpreendido pelo momento crítico que levou a morte e pelo silêncio de Deus. Não se sabe, mas isso não invalida a chave global do seu ministério, nos obrigando a substituir por outra. O certo é que os numerosos conflitos que Lucas nos relata a propósito da Igreja primitiva não se parece em nada ao conflito gerado, segundo o mesmo Lucas, por Jesus de Nazaré.

Diz-se "ainda" porque esta chave política, de acordo com Juan Luis Segundo, foi a chave de Jesus para dar sentido à sua ação: o Mestre da Galiléia entendeu a si mesmo como portador de uma mensagem transformadora da realidade, uma mensagem, portanto, política (a "boa nova aos pobres"). Paulo, ao perceber que esta modificação profunda não se produzia, viu-se obrigado a explicitar o conteúdo de sua fé cristã em termos de uma chave antropológica. A mudança que ocorre a partir da ressurreição de Jesus na história afeta em primeiro lugar o ser humano. Esta chave antropológica, pós-pascal, perfila-se a partir da tomada de consciência da escatologia paulina, que torna possíveis e necessárias estas duas afirmações: “o mundo muda” radicalmente para o homem graças a Cristo e o mundo não tem mudado em nada com Cristo. “O Reino já chegou com poder e o Reino não chegará jamais com poder na história”.

O Novo Testamento, incluindo os três sinóticos, mostra que o sentido de Jesus vai em busca de expressões criativas para cada contexto. Seguir Jesus não é sacralizar a ideologia que ele usou e forçar as circunstâncias infinitamente variáveis ao escutar as mesmas palavras e presenciar idênticos acontecimentos. Trata-se de “criar” evangelhos para expressar a fé de Jesus com as ideologias que melhor possam veiculá-las aqui e agora. O NT é o melhor exemplo de uma coleção de “chaves” diferentes em torno de uma mesmo personagem histórica: Jesus de Nazaré. Todas elas são chaves humanas, porque Deus não tem outra linguagem para falar ao homem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

ANÁLISE E DISCUSSÃO SOBRE A QUESTÃO DO PECADO - parte II

Observo que diligentemente as religiões cristãs evangélicas em sua história á causarem aberrações de caráter moral e repugnante, quando resolveram a tarefa de aplicarem a moral a partir da natureza humana. Por conseguinte, religiões tão pouco tem de planejarem isto, não devem servir do universo para deduzirem deveres, ela não devem conter códigos de leis.

A Teologia da Libertação que teoricamente deveria ensinar a Igreja a tomar partido pelos pobres e humilhados deste mundo, deveria está mais preocupada com a sociedade que esta corrompida não só na sua periferia, mas em toda a sua substância pela exploração desumana dos pobres pelos ricos, pela injustiça institucionalizada, o pecado social e o egoísmo.

As igrejas cristãs evangélicas contemporâneas admitem, de modo dissimulada, sua categorização como religião de comércio através do que os estudiosos ensejam chamando de “teologia da prosperidade”. Não se restringe a pregar a “salvação” somente com um sentido escatológico, o que era pecado antes hoje não é mais, havendo assim a necessidade de refazer uma nova leitura da questão do pecado.
Dentro da Teologia contemporânea a esperança é o alicerce fundamental e imprescindível para a prática de uma ética pela vida, neste caso posso fundamentar e refletir na teologia de Jürgen Moltmann, que enfatiza a realização da esperança escatológica através da justiça, da humanização do ser humano, da socialização da humanidade e da paz para toda a criação. Por causa da esperança, os seres humanos não capitulam diante do imutável e se mantém como seres insatisfeitos e inquietos num mundo injusto e não redimido. A fé é dependente da esperança, afirma, lembrando “o pai da igreja, Crisóstomo: Não é tanto o pecado que nos afunda na perdição, mas sim a desesperança”.
A contemporaneidade desvenda em sua tragédia que, a noção de pecado longe de ser uma noção ultrapassada ou, uma questão do sujeito consigo mesmo - auto-erotismo capital -, diz respeito a uma realidade que concerne primeiramente ao Outro. Falar de pecado é ser remetido imediatamente à existência do Outro. Apesar de não acreditar que as escrituras fossem à palavra de Deus inspirada e que ninguém poderia estar protegido de nada além que a sua experiência pessoal, Schleiermacher, seguramente mantinha que cada pessoa tem uma consciência de Deus que insufla um senso de dependência para com algo para além de si mesmo, e que uma vez que o homem é totalmente condicionado a Deus, o pecado procede sempre que a pessoa se debate por independência.

terça-feira, 29 de junho de 2010

ANÁLISE E DISCUSSÃO SOBRE A QUESTÃO DO PECADO - parte I

O medo é à base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana. O medo dos seres humanos, individual ou coletivamente, domina muito da nossa vida social, mas é o medo da natureza que dá à origem a religião. Neste sentido, a religião, por ter no terror a sua origem, dignificou certos tipos de medo e fez com que as pessoas não julguem vergonhoso e para isso, utiliza-se do medo causado pelo pecado.

Para o cristão evangélico a questão moral subordina-se à questão da salvação. Tanto os sonhos como a linguagem da religião são formas simbólicas de nos referirmos às experiências vividas. O além é horizonte que os homens constroem para dar sentido e perspectiva às vidas concretamente vividas no seu mundo social. Rubem Alves diz que “O homem é o que ele produz”.

A justificação pela fé, ao contrário, subverte esse esquema. O homem não é um ser subordinado a uma lei. O homem é um ser perante Deus, e Deus é essencialmente graça e liberdade. Um dos exemplos que cito pode ser comentado sobre as narrativas de Moises quando se referiu a um grupo de anjos que, segundo a tradição hebraica e, mais apropriadamente, a tradição rabínica, os quais, tendo recebido permissão do Criador para descerem a terra, teriam feito uso de todas as faculdades mentais e motoras, típicas do ser humano, teriam inflamado no desejo sexual ao contemplarem a formosura das mulheres que habitavam na terra, fruto do crescimento demográfico da época, já que as enfermidades e a morte, causas diretas da entrada do pecado no mundo pela desobediência do primeiro casal só se tornaram evidencias fortes com o prolongar do tempo.
Esse desejo desenfreado pode ser ate mesmo explicado em função da não convivência anterior dessas criaturas com a humanidade, onde os laços sociais e religiosos ainda eram fortes e o respeito fazia parte do regime patriarcal, ainda que o pecado fosse uma realidade, sobretudo na vida dos descendentes de Caim que já experimentavam ha mais tempo, o privilegio de viver sobre a face da terra.

Analisando o texto bíblico, mas precisamente, vemos que o domínio de uma cultura patriarcal desenvolveu toda uma historia que contribuiu para uma estrutura hierárquica do gênero, fazendo com que rompesse a barreira de uma divisão política e geográfica sendo utilizada também na esfera ocidental. A relação das religiões com a crescente diferenciação social das sociedades modernas possibilita a construção de várias hipóteses sobre a complexidade da experiência religiosa. Como as religiões constroem um discurso que normatiza e exerce pressão simbólica desigual sobre homens e mulheres que estão submetidos à sua mediação, o gênero também passa a ser um mediador para a análise das formas pelas quais a pessoa torna-se uma religiosa.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

CRÍTICA DO PECADO APRESENTADO NO FILME “EM NOME DE DEUS”

O pecado apresentado no filme “Em nome de Deus“ demonstra toda uma influência que foi trazida pelos “Pais da igreja”; como uma cultura mantém enraizada esses conceitos literalmente de bem e mal como origem de pecado e como pode ser traduzido pelo comportamento humano um julgamento de verdade sobre o assunto.

Assim visto como uma má influência na sociedade irlandesa por volta dos anos 60, à mulher é representada por três características que maculam os lares e as famílias da comunidade: a mãe solteira; a vítima de estupro e a beleza de uma mulher que desperta interesse nos homens, sendo analisados como pecados, independentes dos motivos que levaram a consumação ou não dos fatos. Observado todo o domínio patriarcal que mantém seus interesses apoiados pela Igreja e pelo Estado, excluindo e inferiorizando o sexo feminino, sendo apontadas como as responsáveis pelos pecados dos homens, transgredindo a lei divina, na medida em que a alma foi criada por Deus para reger o corpo e o homem, fazendo mau uso do livre-arbítrio, elas invertem essa ralação, subordinando a alma ao corpo, caindo assim na concupiscência e na ignorância.

Já no convento, aonde essas três mulheres são confinadas, é criado um tipo de penitência para pagarem por seus supostos pecados, através de trabalhos forçados e sob rígida doutrina das irmãs da Misericórdia em nome da Igreja Católica. O interessante é que lá também se encontrava mulheres, que por serem portadoras de deficiência mental ou alguma forma de debilidade, também eram consideradas pecadoras, com isso minimizavam a intervenção da graça, quando não chegavam a negá-la totalmente, esquecendo que a graça precede todos os esforços de salvação, segundo Agostinho.

Desde o triunfo do cristianismo no Império Romano, a cultura patriarcal judaico-cristã modelou os papéis sociais de homens e mulheres, santificando a opressão masculina e demonizando a feminina. A luta pela liberdade de uma tradição machista que as mulheres tiveram, deixam exemplos de reflexão sobre o pecado, embora permanecesse visceralmente impregnado de uma concepção nitidamente dualista que contrapunha o homem a Deus, o mal ao bem, as trevas à luz. È importante reconhecer e superar os dogmas implantados na sociedade ao longo dos anos, lembrando que o fato social da época tinha todo um interesse político de poder, não cabendo mais atualizá-los para um período contemporâneo, e que acima de qualquer interesse está o interesse das relações humanas e da construção de uma sociedade firmada no pilares da igualdade e capacidade dos valores éticos.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

INTRODUÇÃO DO INDIVÍDUO NA SOCIEDADE: UM ESTUDO DE ERICK FROMM E DURKHEIM

Na ascendência de sua vivência, o indivíduo se viu como um estranho no mundo; sentiu-se solitário e amedrontado. Justificando-se, então, a abordagem de uma reflexão dos papéis nas sociedades contemporâneas sobre o seu presente e futuro próximo, uma vez que o habitat humano está em constante desgaste e revitalização, isso porque as sociedades são sustentadas por economias capitalistas, estruturadas sob a capa do controle dos meios de produção que tendem a superar o poder político ao invés de apoiar suas atividades.
No estudo realizado por Eric Fromm, ele apresenta conhecimentos para avaliar as necessidades psíquicas fundamentais do ser humano, isto é, aquelas transcendentes às modificações culturais e aos vários momentos da civilização. Então esse conhecimento permitirá também um julgamento integral das organizações sociais. Com isso, Fromm, justifica uma crítica moral e psicológica, apropriado para diagnosticar o valor de uma dada sociedade, sociedade que é útil na medida em que atende essas mesmas necessidades. Contudo, ele faz uma análise filosófica da “situação humana” de suas contradições existenciais e essenciais, separando de forma conclusiva, elementos básicos ou independentes da psique. Essas necessidades essenciais do homem, como ele as idealiza, em Psicanálise da Sociedade Contemporânea (cap. III do livro), medem o bem-estar do indivíduo, que para ele é o alicerce da construção de sua crítica sociológica.
Para existir progresso de vida entre os componentes das sociedades modernas é imprescindível saber lidar com a sustentabilidade modificável da natureza, sendo analisada por Eric Fromm, sob a forma de “Caráter Social”, que é o produto da influência das condições socioeconômicas sobre os impulsos humanos, obra importante na dependência da evolução dos vários níveis da sociedade e no conteúdo de sua composição.
“Entendendo o caráter social como estrutura do caráter compartilhada pela maioria dos indivíduos da mesma cultura, que é diferente em cada um dos indivíduos, chega-se a conclusão que o conceito de caráter social é uma função da realidade e não é estatístico, só podendo ser entendida pela sua referência à função social” (p. 79, 1984).

De acordo com Fromm, não há sociedade em geral, mas apenas construções igualitárias particulares que trabalham com costumes diferentes e examináveis, sendo que esta sociedade só existirá se funcionar dentro de um traço geral e de sua estrutura particular.
Para entender um pouco do que comenta Eric Fromm sobre a “função Social”, pode-se fazer uma analogia a definição de Durkheim quando ele trás um sentido que se aproxima do conceito de “função social” para “papel social”, sendo um conjunto de normas, direitos, deveres e expectativas que envolvem uma pessoa no desempenho de uma função junto a um grupo ou dentro de uma instituição.
Só se atinge o método social, se este partir do conhecimento da realidade do homem tanto na sua característica psíquica como fisiológica para que se aprenda sobre a influência mútua entre natureza do homem e a natureza das condições exteriores sob quais ele vive, e que ele terá de dominar para que possa sobreviver.
Para Eric Fromm, o caráter social se dá a partir da inclusão do indivíduo com o mundo que, no caminho de sua existência, ocorre por meio do processo de adquirir e assimilar coisas, na relação com as demais pessoas e consigo mesmo, o que significa que é social. A função do caráter social é moldar os indivíduos no sentido de agir na direção exigida pela sociedade. O caráter social produz o desejo de agir no sentido de que a sociedade exija e produza no indivíduo a satisfação de atuar de acordo com as exigências da cultura e assim realiza uma mediação entre o modo de produção e as idéias dominantes em uma determinada sociedade.
O moderno sistema social e econômico baseia-se nos princípios da concorrência e do êxito. As ideologias louvam-lhe o valor, e por essas e outras circunstâncias o anseio de prestígio e competição está firmemente implantado no ser humano que vive na cultura ocidental. Mesmo que não houvesse diferenças nos respectivos papéis sociais, essas ansiedades existiriam nos indivíduos devido aos fatos sociais.
Definido e concretizado dentro da sociologia de Émile Durkheim, que parte do conceito que o homem seria apenas um animal selvagem que só se tornou indivíduo porque se tornou sociável, ou seja, foi capaz de aprender hábitos e costumes característicos de seu grupo social para poder conviver no meio deste, interpreta-se que, fora da sociedade o indivíduo não existe, ele se torna individualista. Durkheim acreditava que as sociedades têm prioridade lógica sobre os indivíduos na qual o definiu como “Fato Social”, sendo distinguidas três características na qual os conceituou como: “Coerção Social”, ou seja, a força que os fatos exercem sobre os indivíduos, levando-os a conformar-se às regras da sociedade independente de sua vontade ou escolha, havendo sanções quando se comete uma infração, podendo ser de forma legal, prescrita em forma de leis ou de forma espontânea, que apesar de não ter penalidade prevista em lei o grupo pode reagir penalizando o agressor da sociedade à qual o indivíduo pertence.
A segunda característica é a “Exterioridade”, são aqueles “fatos sociais” que existem e atuam sobre os indivíduos independentemente de sua vontade ou de sua adesão, ou seja, são exteriores ao indivíduo. As regras sociais, os costumes, as leis, já existem antes do nascimento das pessoas.
A terceira característica apontada por Durkheim é a “Generalidade”. É social todo fato que é geral, que se repete em todos os indivíduos, ou pelo menos, na maioria deles, manifestando uma natureza coletiva ou estado comum ao grupo, como as formas de habitação, de comunicação, os sentimentos e a moral. Considera um fato social como normal quando se encontra generalidade pela sociedade ou quando desempenha alguma função importante para sua adaptação ou sua evolução, tomando como exemplo o crime, por ser encontrado em toda e qualquer sociedade.
“Um fato social não pode, ser acoimado de normal para uma espécie social determinada senão em relação com uma fase, igualmente determinada, de seu desenvolvimento”. (Da divisão do trabalho social, p. 52, 1973).

Para Durkheim, a consciência coletiva seria então formada durante a socialização e consistiria em por tudo aquilo que habita nessas mentes e que serve para orientar como se deve ser, sentir e se comportar. É justamente a educação um dos exemplos para mostrar que toda sociedade tem de educar seus indivíduos fazendo com que aprendam suas regras sociais, desta maneira é a sociedade, como coletividade que controla as ações individuais.
A solução estaria em seguir o exemplo de um organismo biológico, onde cada órgão tem uma função e depende dos outros para sobreviver, se cada membro da sociedade exercer uma função na divisão do trabalho, ele será obrigado através de um sistema de direitos e deveres, e também sentirá a necessidade de se manter coeso e solidário aos outros.
“Se há um fato cujo caráter patológico parece incontestável, é o crime” (As regras do método sociológico, p.52, 1963).

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Resumo Crítico do texto "O DILEMA PARA UM RELACIONAMENTO COM DEUS" do Prof e Psicologo Robson Souza

Robson Souza é Psicólogo, formado em Ciências Sociais e Teologia, Mestrado em Teologia em Educação Comunitária pela IEPG/EST, Professor de Psicologia do Centro Universitário da Bahia - FIB e da Faculdade Batista Brasileira – FBB , em sua publicação, aborda um tema sobre a maneira com que o homem, limitado e corruptível, pode manter um relacionamento com um Deus que se apresenta de forma infinita, sem limites e sem medidas formais aparentemente, porém ao realizar uma pesquisa entre jovens batistas, foi verificado que as características de Deus são atribuídas às características de seus pais e independente de ser uma mãe carinhosa ou um pai castrador, metade deles tem um bom relacionamento e uma boa auto-estima.
Ao analisar um pensamento de Carl Gustav Jung, que foi um psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, vejo como foi bem colocado pelo professor Robson, a sua definição derivada de suas pesquisas de como é importante esse relacionamento de forma autêntica:

“É a função psíquica que permite a geração de um símbolo entre conteúdos inconscientes e conscientes, pela confrontação de opostos. É essa função que permite que os conteúdos do inconsciente possam vir à consciência na forma de símbolos e fantasias” . C. G. Jung

É esse relacionamento de Deus, de forma transcendente com o homem, que permite a criação de uma materialização de uma imagem do inconsciente, transformando-as em realidades simbólicas, concordando com o professor Robson, vejo que realmente “a idéia de Deus nos revela mais sobre nós do que do próprio Deus”.
Desta mesma maneira prossigo analisando suas colocações a respeito do mau relacionamento com Deus dos jovens que não apresentaram um bom relacionamento familiar, embora eu tenha utilizado essa frase para concordar com o professor, nesta contraditoriedade, há algo a ser aprendido em todas as possibilidades de escolha. Não é necessário vivê-las uma a uma. Há experiências que não precisam ser vividas para se extrair lições importantes, nem sempre o mau relacionamento com um, implique na mesma condição com o Outro (coloco Outro substituindo o nome “Deus” devido à dialética hegeliana citada pelo Mestre e Professor Robson: Em si e fora de si. Nós projetamos em Deus todas as nossas características contraditórias). A percepção do espiritual e a consciência da imortalidade da alma exigem algo mais complexo para a vida e para o funcionamento do Universo. O ser humano tem se valido de escolhas entre duas opções, fruto da unilateralidade da consciência, para decidir seu destino. Suas escolhas, automaticamente excluem os paradigmas integrantes de opções opostas, por negá-las veementemente. Ele apenas integra o que considera melhor para si, excluindo o que não percebe ou não aceita na opção oposta.
Valores morais são decisivos na formação do caráter. Saber-se falho, manchado pelo “mau” é algo que não se esquece. Geralmente, as pessoas não têm à disposição ou outros pontos de vista na hora em que mais precisam, sendo incapazes, portanto, de se enxergar e se interpretar de formas alternativas. Assim, a sentença emitida inicialmente por um familiar ou grupo significativo, é assumida em primeira pessoa e o indivíduo se transforma em seu próprio eterno juiz.

“O homem procura um princípio em nome do qual possa desprezar o homem. Inventa outro mundo para poder caluniar e sujar este; de fato só capta o nada e faz desse nada um Deus, uma verdade, chamados a julgar e condenar esta existência.”
Friedrich Nietzsche

Sabiamente o professor expressa sua opinião a respeito da chamada “cura espiritual e psicológica” e comenta sobre as religiões brasileiras que atribuem os fatores das doenças psicológicas meramente a problemas espirituais. Mostra-nos que quando reconhecemos nossas falhas e aprendemos a encontrar o caminho para a solução, nos achamos dentro do nosso espaço, como diz Freud: “o luto deve ser vivido intensamente, dói muito mesmo, é cruel, mas de nada adianta fugir nem fingir”. Entretanto assim conclui o professor Robson, “o sofrimento psicológico é mais do que uma dor – é dor e mais ressentimentos, a culpa, a resistência e outras associações psicopatológicas, isso me recorda de uma meditação do escritor Paul Tournier, no seu livro Culpa e Graça: “Nada nos deixa tão solitários quanto nossos segredos”.
Na verdade precisamos e necessitamos deste relacionamento fiel e puro com Deus utilizando-se do espírito através de suas revelações pessoais, devemos ser nós mesmos, sem máscara ou persona, neste relacionamento íntimo e individual. O processo relacionado com o desenvolvimento, na formação da representação de Deus, é sumamente complexo e é influenciado pelos múltiplos fenômenos culturais, sociais, familiares, individuais, que vão desde os níveis biológicos mais profundos da experiência humana até as realizações espirituais mais sutis. No Ponto de vista Winnicottiano, no decorrer da vida, segundo Ana Maria Rizzuto, Deus permanece um objeto transicional a serviço da necessidade de equilibração consigo próprio, com os outros e com a própria vida. Isso acontece não porque Deus é Deus, mas porque, como o bichinho de pelúcia, ele ganhou boa parte do seu conteúdo a partir dos objetos primários que a criança “encontrou” em sua vida. A outra parte do conteúdo de Deus provém da capacidade que a criança tem para “criar” um Deus de acordo com as suas necessidades.
Mais uma vez o professor acerta em concluir em seu trabalho de pesquisa, expondo que na verdade que não é Deus o culpado pelos nossos fracassos, é nosso o poder de escolha, possuindo uma auto-regulação efetiva, além de alterar a si próprio para uma relação com Deus é um fator de regulação emocional.

domingo, 4 de outubro de 2009

comentário sobre o tema do autor David Larsen: Anatomia da pregação

Neste livro, o pastor e professor David L. Larsen defende a importância da pregação bíblica em meio ao pós-modernismo existente em nossa sociedade contemporânea. Segundo Larsen, a igreja cresce e diminui por causa da pregação. Na maior parte do texto ele analisa os principais aspectos do desenvolvimento sermonário e propõe dicas relevantes para um aperfeiçoamento da mais fina arte, como ele mesmo define a ato de pregar o evangelho.
A pergunta do autor que intitula o texto é oriunda de vários questionamentos que surgem quanto a necessidade de uma pregação, a pregação tem futuro? Ele mesmo recita que “os críticos dizem que todo esse esforço é um desperdício de recursos humanos”, e realmente podemos confirmar se olharmos para toda uma tecnologia que obtemos no século XXI, utilizamos de vários recursos nos meios de comunicação e que são imprescindíveis para acompanhar e fazer chegar a mensagem das escrituras sagradas aos mais distantes dos povos que escolhemos como alvo, salvo os que não gozam destas condições contemporânea de se relacionar, e olha que para fazer chegar ao seu destino desejado não é presciso ser nenhum convertido ao cristianismo propriamente dito (que é o nosso caso), apenas ter uma habilidade tecnológica informatizada.
Ele apresenta questionamentos para sustentação da necessidade do sermão utilizando a árvore genealógica de toda uma história de pregação e as formas empregadas nas religiões desde o princípio, o problema é exatamente quando ele tráz para a modernidade toda a elaboração dos textos para discursão onde ocorre aí o ocultamento por parte de alguns pregadores em apresentar a verdadeira história social, política, geográfica e cultural de um povo que viveu a séculos passados sendo adicionados a uma outra realidade, não esquecendo como ele mesmo coloca que o próprio cristianismo já sofreu influências do judaismo e do islamismo, percebe-se ai que já começamos sem ter uma verdadeira identidade. Então o que passar nos sermões, a mensagem de qual Cristo?
O autor caracteriza o sermão como dado por Deus para instrução e a inspiração de seu povo e para propagação do evangelho, posso considerar todo sermão divino ao utilizar as mesmas palavras do autor “Deus nos criou com capacidade de pensar, ouvir e falar, assim como Ele, fazendo-nos sua imagem e semelhança”, mas já não posso utilizar a mesma caracteristica se analisarmos os textos que são apresentados, e que claramente demonstram uma interpolação e interpretação exegética pessoal para determinados fins de quem dirige o sermão, neste caso posso intitular de sermão culturalmente moldado (grifo meu).
Sabiamente Larsen define que os profetas do Antigo Testamento eram pregadores, referindo-se as mensagens de Noé, Moisés, Josué, Davi, etc, presumindo-se que essas formas de comunicação que eles tinham com seu povo concluiam-se em sermões. Assim também foi com João Batista no Novo Testamento, preparando a vinda do que é a Luz, posteriormente Paulo, notando-se a diferença entre os outros pregadores.
A diferença entre as pregações de Paulo para os outros era que ele sabia como adaptar suas ministrações de acordo com os tipos diferentes a sua platéia, o perigo em mantermos essa linha de sermão atualmente é oferecer uma mensagem tipicamente fundamentalista e ortodoxa em função das doutrinas da igreja, tornando as pessoas mais religiosas do que Cristãs, consequentemente substituindo o valor da mensagem descrita como recitado pelo autor “Vão pelo mundo todo e preguem o evangelho a todas as pessoas” (Mc 16:15) que visa o mantimento da idealização de Jesus Cristo.
Por esse motivo concordo quando o autor diz que o desvio prático de nossa posição sobre a autoridade da Bíblia para pregação pode ser claramente visto na obra recente de David G. Buttric, intitulada de homiletic, ele faz duras críticas ao pietismo, ao decisionismo, conversionismo, personalismo e ao fundamentalismo, isso afasta claramente o movimento da “história da salvação” e da concepção de sermões. Cuidados devemos tomar para que a pregação seja rica em discernimento e sua eloquência dos textos aplicados, utilizando-se de alguns tipos de sermões que podem ser apresentados da forma de sermão tópico, sermão tópico textual, sermão textual e sermão expositivo.

domingo, 16 de agosto de 2009

A PRÁTICA DA TEOLOGIA EM UMA PERSPECTIVA FEMINISTA

A exposição do assunto foi construída a partir de uma análise apresentados nos textos de Wanda Deifelt e Karen Bergesch, que oferece duas possíveis abordagens para o caso de violência doméstica dentro da prática da teologia em uma perspectiva feminista, sendo uma, o trabalho de descentralização das idéias já estabelecidas dentro de um método de trabalho. A outra seria utilizar os métodos através da aplicação para os dias atuais. Nota-se que é imprescindível trazer ambos os métodos para a prática, analisando toda uma realidade de violência domiciliar que transcende o âmbito religioso, cultural, econômico e social, não havendo obstáculos nem empecilhos para realizar as agressões as suas vítimas, podendo ocorrer em qualquer esfera, ferindo toda uma sociedade e não só a um determinado gênero.
A construção que se tem de poder, referente às práticas sociais do homem na cultura, nos mostra que à violência doméstica já não é observado com anomalia. Utilizando este argumento, o movimento feminista vem trazendo a ostensividade, esses problemas que ocorrem em todos os países, apesar de serem classificados como “experiência cotidiana”, embora as pesquisas mostrem que o risco de agressão sofrida pelas mulheres dentro de um lar é nove vezes maior do que fora do ambiente doméstico.
Apenas reconhecer que somos uma sociedade violenta ainda não é o suficiente, é necessário que haja a denúncia. As justificativas que são utilizadas como mecanismo de amparo para o conflito, ainda levam culturalmente prevalência do sexo opressor, aplicando respaldos para tal prática de violência ao ponto de inverter os papeis e seus valores chegando a colocar a vítima de agressão como culpada pelos fatos que ocorrem, formalizando frases que seriam cômicas se não fossem trágicas pela bela ironia do sistema, tais como: “Eu não sei por que bato, mas ela sabe por que apanha”; “Ele bate porque ela provoca”; “Ele não sabia o que estava fazendo porque estava bêbado”; “Você tem que pensar nas crianças”; “Ele não bateria em mim se não me amasse”; “Cada um carrega sua cruz. Este marido é a sua”.
A subordinação da mulher, colocada como ser inferior, segundo a teoria dos dualismos hierarquizados é a raiz da violência de gênero, na medida em que se buscam desconstruir os papéis estabelecidos, encontrando resistência dos que querem manter o “status”. Esta desconstrução de papéis tem sido tentada, sem grande sucesso ainda, por homens e mulheres que acreditam na igualdade de gênero.
Chama a atenção o fato de que “masculinidade” e “feminilidade”, muitas vezes nada tem a ver com o fato de ser um homem ou uma mulher. O mais importante e questão central é o comportamento social.
Analisando a violência contra a mulher em uma abordagem dentro de uma perspectiva foucaultiana é destacado a relevância do corpo como sustentáculos das forças de poder e de saber, que se articulam estrategicamente na história da sociedade. A corporeidade ocupa uma posição central na obra de Foucault, ressaltando-a enquanto realidade e como ponto de apoio de complexas correlações de forças, sobre a qual incidem inúmeras conformações discursivas produtoras de "verdades", que tanto podem reafirmar como recriar o sentido do corpo presente ou a sensibilidade individual ou coletiva nele imanente.
Os dispositivos de sexualidade não são apenas do tipo disciplinar, atuando pelo controle do tempo, do espaço, da atividade e pela utilização de instrumentos como a vigilância e o exame. Eles também se realizam pela regulação das populações, por um bio-poder que age sobre a espécie humana. Questões como o nascimento, mortalidade, nível de vida, duração da vida estão ligados tanto a um poder disciplinar quanto a um tipo de poder que tem como objetivo gerir a vida do corpo social.
O poder não atua no exterior, mas trabalha o corpo dos homens, manipula seus elementos, produz seu comportamento, enfim, fabrica o tipo de homem necessário ao funcionamento e manutenção da sociedade industrial capitalista. O corpo só se torna força de trabalho quando manipulado pelo sistema político de dominação, característico do poder disciplinar e do bio-poder. Algumas pinceladas de história já mostram que o ser humano se tem constituído numa duplicidade que só consegue se perceber em posições distintas: corpo e alma; razão e emoção; senso e dissenso; feminino e masculino. A sociedade ocidental tem, também, construída os sentidos de seus corpos sobre os conceitos que a regem: produção, economia, mercado, consumo. Por isso, institui um corpo sexual e produtivo (masculino), reprodução do modelo capitalista, do valor mercantil, limitando em demasia o espaço sedutor (feminino).
Não é possível, em pleno século 21, ser tratada como a costela de Adão. Não se quer uniformidade. Mas que sejamos respeitados todos de acordo com o que nos é peculiar. Falta isso ser posto na mesa como a lei (Lei Maria da Penha) foi posta na prateleira. É preciso afetividade social.

sábado, 18 de abril de 2009

Analogia entre o filme "O Alto da Compadecida" e a nossa realidade social

O Auto da Compadecida é uma crítica em vários aspectos, onde revela toda a sujeira da sociedade e não se esquece de todas as artimanhas usadas pela Igreja e seus representantes que com a sua submissão ao poder político aliado aos interesses de uma minoria que nada contribui para o desenvolvimento social da comunidade.

Um dos fatores decisivos para compreender os problemas da região é o sistema político que predominou e ainda domina regiões e cidades do interior nordestino. A indústria da seca, os votos de cabresto, os currais eleitorais, os eleitores fantasmas, a falta de um programa para a educação, saúde, segurança, infraestrutura, emprego e tantos outros dispositivos utilizados no passado e no presente do Nordeste brasileiro (e também em outras regiões), fazem parte de uma herança das mais desagradáveis, o coronelismo.

Povo religioso, simples, de pé no chão, acuado pela seca, atormentado pelo fantasma da fome e em constante luta contra a miséria. Um breve perfil dos sertanejos nordestinos poderia apresentar todas essas informações. Acrescentaria, sem dúvida, a opressão a que foram (e ainda hoje são) submetidos por famílias de poderosos coronéis, que possuem terras e almas por vastas áreas de todo esse Brasil, tornando os cidadãos refém dos órgãos público, sendo a igreja corrompida pelo poder político, não investe e nem toma a iniciativa de buscar esses recursos, pois assim entrará em conflito e perderá os seus benefícios mantidos pelo clero que por sua vez é mantido pelo estado.

A importância de uma igreja livre é que ela apresentaria sua liberdade em tomar decisões, o alvo passa a ser o “ser humano”, que começará a ser vista como aquelas que são necessárias para a sobrevivência e mantenedoras da presença de um Deus vivo, a homogeneidade do corpo de Cristo passa a ser mais solidário com as dificuldades alheia.

É esclarecedor lembrar o final de “O Auto da Compadecida”, quando o cangaceiro é absolvido dos seus pecados e mandado para o céu. Ele, afinal, nada mais fez que buscar meios de sobreviver numa sociedade regida por leis cruéis. Virtude que também é enfatizada com relação a João Grilo e que consiste justamente no fator que gera a identificação no espectador. O que me leva a indagar: o quanto revelador das nossas relações sociais é essa aceitação positiva do malandro?