domingo, 11 de maio de 2014

O HOMEM RELIGIOSO CAUSA A IMPRESSÃO DE NEGLIGENCIAR SUA VERDADEIRA VIDA

O homem religioso causa a impressão de negligenciar sua verdadeira vida, sua vida terrena; parece estar fora do ritmo cíclico vital, palpitante, na expectativa de que venha o além. Assim a religião se apresenta como refugio dos que se sentem demasiado fracos ou temerosos para sustentarem a luta pela existência. (RIESENHUBER, 1972, pág.13) (5). "A única instância capaz de realizar no homem uma relação pessoal com Deus é a liberdade". (RIESENHUBER, 1972, pág.107). Na liberdade, o ser humano decide desde o centro de sua pessoa, face ao princípio absoluto do bem, no qual se oculta à exigência de Deus sobre todo o seu ser. Porém, ao mesmo tempo, a decisão deve possuir também certo grau de consciência explícita, que só torna possível mediante o encontro com o mundo. De acordo com o autor, o ato livre, no qual o ser humano é no mais alto grau, ele mesmo, inclui, portanto elementos do mundo que constituem o material e a compreensão concreta da sua decisão (Riesenhuber, 1972). Podemos notar um fator totalmente inverso aplicado pelas religiões cristãs que no momento de adesão do ser humano a Deus e no seu apelo na fé, o ser humano se abre sem reservas, confundindo com liberdade, desde a raiz de sua pessoa, isto é, nas profundezas de sua singularidade individual até a sua totalidade do seu ser, utilizando-se de suas exigências e repreensões como justificativa a fim de submeter a Ele e ao aceitar a doutrina cristã, o indivíduo admite que os outros lhe interpretem o sentido de sua vida para além da experiência que ele mesmo teve. A religião cristã evangélica expressa por tanto apenas seu pensamento em formas de práticas religiosas, não suportando a tensão existente entre o absoluto buscado e sua manifestação esperada no mundo, constituem apenas tentativas de projeto e moldura de ações sacramentais. A religião Cristã Evangélica é habitualmente enaltecida por ter abolido o sacrifício humano. Mas apenas substitui o sacrifício humano sangrento por sacrifício de outro tipo, ao invés de corporal, introduz o sacrifício psíquico, espiritual, que em verdade, não na aparência, mas no fato e na realidade é um sacrifício humano. Por isso pessoas que só se prendem a aparências creem que a religião cristã introduz no mundo algo essencialmente diverso da necessária aos seres humanos. Dado o caso que Deus se manifeste no mundo, deve sua revelação ser buscada pelo homem, precisamente no outro homem, porque ninguém a possui pessoalmente. Isto corresponde à tendência do homem, que anseia por Deus, como por exemplo, no amor, dá-se conforme as análises da experiência, em geral, na dimensão intramundana. (RIESENHUBER, 1972, pág. 145).

domingo, 13 de abril de 2014

A BASE DA REFLEXÃO

A obrigação de acatar a natureza humana, na medida em que nossos impulsos e desejos constituem o material do qual deve ser feita a nossa felicidade. É desnecessário oferecer aos seres humanos alguma coisa obscura
analisada como "bom", precisamos dar-lhes algo que ambicionem ou de que careçam, se almejarmos colaborar para sua felicidade.
A religião cristã parece diminuir o significado do mundo e da tarefa humana, assim se dá também a impressão de descuidar do aspecto corporal do ser humano, sua dependência dos sentidos e sua alegria de vida plena. Interessa-se a religião apenas pela alma, ou se muito, pelo espírito alheio. Para as religiões cristãs evangélicas, a vida propriamente dita parece começar depois da morte, e a morte já deve ser antecipada na vida terrena pelo martírio continuo.
A base da nossa reflexão não é um fenômeno isolado, um objeto ou uma experiência humana determinada, mas o fato universal, evidente de que o ser humano é capaz de fazer experiências e de encontrar algo diverso dele mesmo. O ser humano vive no mundo, para ele tendem suas aspirações, abrangente pelo seu conhecimento, toma posição em face dele com o sentimento e o desejo, ao contrário, a religião cristã influi sobre ele pela sua ação determinada por imposição. O principio de dificuldade é que o ser humano depende essencialmente do mundo sem que, entretanto possa diminuir da sua própria essência, prognosticar ou produzir o seu estado concreto, a saber, o seu ambiente com as pessoas, coisas e acontecimentos. Logo faz parte da constituição essencial do homem estar exposto de modo aberto, receptivo, aquilo que na sua forma concreta não lhe é essencial nem necessário em si mesmo, fato inadmissível pela religião cristã. Na linguagem da religião cristã evangélica a crença em Deus e o amor a Ele não são possíveis para quem primeiro assegura a sua autonomia, procurando, em seguida, talvez oferecer-lhe fé e amor, como obra própria.

sexta-feira, 11 de abril de 2014

Segundo José Saramango

As religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens; que, pelo contrario foram e continuam sendo causa do sofrimento inenarrável, de matanças, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem em um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana (...). A maioria dos fieis de qualquer religião não somente finge ignorá-lo, mas se levanta furiosa e intolerante contra aquele para quem Deus não é mais do que um nome, nada mais do que um nome, o qual, por medo da morte, lhe dê um dia e que viria a dificultar nossa passagem para uma humanização real (...). Por causa de Deus e em nome de Deus permitiu-se e justificou-se tudo, principalmente o pior, principalmente o mais terrível e cruel. (SOBRINO, 2007, PÁG. 176).

O PAPEL E A INFLUÊNCIA DAS RELIGIÕES NA VIDA DAS PESSOAS




Durante as investidas das religiões cristãs evangélicas pela busca por uma vida virtuosa, surgiram várias e variadas concepções, entre elas, a verdade é fabricada ou encontrada? Não submergindo o trabalho a esta questão, porém, de maneira inevitável deixar passar despercebido, pois a religião cristã está alicerçada neste pilar, sendo alegado como fator para uma mudança de vida, acalentando a ânsia de encontrar sua essência como centelha divina. Aos poucos essa busca modifica a vida ingênua do buscador para uma vida para aparentemente real e absoluto, fazendo com que o ser humano seja lançado para além de si mesmo a procura de Deus. A labuta sem controle, que há no ser humano, de retornar ao seio de sua matriz é legitimo, mas, ao mesmo tempo, torna-o vulnerável à malignidade dos prestigiadores espirituais. ―para alguns, a prisão é uma boa forma de impedir o crime, outros sustentam que a educação seria a melhor alternativa‖. (RUSSELL, 2009, pág. 43). Segundo Russell, não se pode provar que essa concepção de vida virtuosa esteja correta, pode apenas expô-las, eis o que pensa: ―a vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento.‖ (IDEM).
Não há a necessidade de fazer das regras morais serem tais que virassem a ser inviável a felicidade natural. Existe mais a ser relacionado a favor da ―natureza‖ na área dos anseios humanos. Impor a um homem, uma mulher ou a uma criança uma vida que venha a fracassar seus impulsos mais intensos é tão cruel quanto perigoso; nesse sentido, uma vida em concordância com a natureza deve ser indicada, com algumas condições. Os desejos comuns são bons para os seres humanos quando satisfeitos pelas artificialidades. Contudo não há coisa nenhuma a pronunciar em amparo das formas de vida que são artificiais na definição de que são estabelecidas por uma ―autoridade religiosa‖ ou por necessidade econômica. A certeza sobre a realidade é de que tais formas de vida sejam, em certa medida, necessárias atualmente. A vida não careceria ser tão duramente fiscalizada nem tão sistemática. Nossos estímulos, quando não consistissem em efetivos destrutivos ou nocivos aos outros, precisariam se ratificáveis, ter cursos livre, necessitaria existir ambiente para a aventura. A obrigação de acatar a natureza humana, na medida em que nossos impulsos e desejos constituem o material do qual deve ser feita a nossa felicidade. É desnecessário oferecer aos seres humanos alguma coisa obscura
analisada como ―bom‖, precisamos dar-lhes algo que ambicionem ou de que careçam, se almejarmos colaborar para sua felicidade.

quinta-feira, 14 de março de 2013

O MEDO AINDA É A BASE DA RELIGIÃO

Muitos homens conservam a soberba perante a sua própria forca, com certeza a mesma soberba deveria nos instruir a refletir genuinamente sobre o lugar do ser humano no mundo, pelo menos esse deveria ser um dos atributos da religião, principalmente as cristãs evangélicas, por ter como lema o amor ao próximo, porém sua catastrófica influência no comportamento humano, que lamentavelmente, no ocidente, onde após a sua reforma mantem-se reinante, leva a constante repressão de seus instintos e desejos, hoje se está diante desse homem distorcido, amputado de sua plenitude, fazendo com que se leve a demonstrar suas preocupações com a inconsciente abdicação de seus desejos instintivos. As pessoas adaptaram-se a mentir em rebanho, a aceitar como verdadeiras as construções falsas ou impossíveis de se comprovar, apenas por serem estas as construções aceitas pelo conjunto da sociedade, unicamente aceitável empiricamente.


É inegável que, muitas vezes, os seres humanos têm pensado em Deus para tê-lo a seu favor, contra outros deuses no âmbito religioso e contra seus inimigos no âmbito histórico. Na antiguidade, não havia Estado sem Deus nem Deus sem Estado. Deus era protetor dos grupos humanos, para isso se necessitava de poder e sua proteção incluía essencialmente a destruição do inimigo. ―O Deus dos exércitos‖, que esteve presente durante séculos na liturgia cristã, é uma clara confirmação disso. A religião gerou violência objetiva, muitas vezes com incrível crueldade, e a seu serviço gerou fanatismo subjetivo. A propósito, José Saramango, com extrema acidez, tornou a repetir como tese universal, em que consiste a essência histórica da religião.


As religiões, todas elas, sem exceção, nunca serviram para aproximar e congraçar os homens; que, pelo contrario foram e continuam sendo causa do sofrimento inenarrável, de matanças, de monstruosas violências físicas e espirituais que constituem em um dos mais tenebrosos capítulos da miserável história humana (...). A maioria dos fieis de qualquer religião não somente finge ignorá-lo, mas se levanta furiosa e intolerante contra aquele para quem Deus não é mais do que um nome, nada mais do que um nome, o qual, por medo da morte, lhe dê um dia e que viria a dificultar nossa passagem para uma humanização real (...). Por causa de Deus e em nome de Deus permitiu-se e justificou-se tudo, principalmente o pior, principalmente o mais terrível e cruel. (SOBRINO, 2007, PÁG. 176).

domingo, 20 de janeiro de 2013

O MEDO É A BASE DA RELIGIÃO


“A felicidade não deixa de ser verdadeira porque deve necessariamente chegar a um fim, tampouco o pensamento e o amor perdem seu valor por não serem eternos.” (RUSSEL, 2009, pag. 39). Em uma definição de como a religião cristã evangélica influência na vida das pessoas, nitidamente notamos como sua capacidade de interagir psicologicamente com o que há de mais frágil no ser humano e temido principalmente pelos cristãos, a aversão irreprimível que existe no homem, o medo. Esta é, principalmente, a base de todo o litígio: o assombro do mistério, o espanto da derrota, o medo da morte. O medo é a nascente da crueldade e, consequentemente, não é de se estranhar que a crueldade e a religião caminhem de mãos dadas. Isso porque o medo é à base dessas duas coisas. Assim vamos aos poucos compreendendo as coisas e refreando tais práticas se opondo contra a religião cristã, contra as Igrejas e contra a oposição de todas as antigas leis. A ciência pode ajudar-nos a superar este medo covarde com o qual a humanidade tem vivido por tantas gerações.

Focando na maior parte da população, existe no fundo de suas memorias, o medo obcecado de ruina, isso é confirmado quando nos referimos às pessoas que têm filhos. Os que têm maiores poderes aquisitivos receiam que embarguem os seus investimentos, os desprovidos temem o desemprego ou a perda da saúde. Estão todos comprometidos na busca compulsiva pela segurança e idealizam que isso pode ser obtido através da submissão à religião, igreja ou líderes evangélicos. Nos períodos de pânico é que a crueldade aparece em maior proporção e mais bárbara. Chegamos a uma analise que só a justiça concede o ato de dar segurança. Neste caso, a justiça é uma analogia ao prestígio dos direitos iguais de toda a raça humana, e o medo, como paixão irracional, e não como uma prevenção racional de alguma possível desgraça.

É preciso evitar que haja miséria; é preciso melhorar a saúde pública por meio da medicina, da higiene e de saneamento e de todos os outros métodos tendentes a diminuir os terrores que rondam os abismos da mente humana e surgem como pesadelos quando os homens dormem. (RUSSELL, 1965, pag. 79).

sábado, 29 de dezembro de 2012

A RELIGIÃO COMO PARADIGMA FILOSÓFICO II



“A religião tem a sua base na diferença essencial entre o homem e o bruto. Os brutos não têm religião.” (FEUERBACH, 1988, pág. 12). O animal está imerso no seu mundo. Sente-o, vive-o e o aceita. A relação do ser humano com o mundo, ao contrário, é problemática. O ser humano é um ser partido entre duas realidades. A neurose é a rebelião contra um mundo impessoal e implacável, que vive em um mundo, por parte de um ser, que vive em função da imaginação, filha do amor. Nas palavras de Camus “[...] o homem é a única criatura que se recusa a ser o que é [...]”. O dualismo, ou mais precisamente a dialética, divide assim o mundo entre o que é (realidade objetiva) e o que deve ser (o ético), aquilo que é dado objetivamente como fato e as exigências antropológicas do homem que vive e sofre estes fatos e se organiza para sua superação. Tal conflito revela uma tensão entre a existência (o que é) e uma exigência ética de superação (a essência).
Tudo que o ser humano fala acerca de Deus, através da linguagem religiosa, nada mais é que uma confissão de suas aspirações e projetos. Deus só pode ser conhecido como homem. O discurso religioso, assim é a expressão-protesto da criatura oprimida, impossibilitada de se realizar dentro das condições dominantes. Sua realidade e seu projeto não desaparecem. Realizam-se simbolicamente nos símbolos religiosos, que se constituem num horizonte para a ação. Ele oferece os pontos de referência de um projeto político de liberação da essência. Quando, entretanto o horizonte se transforma em outro mundo, autônomo e independente, a verdade da religião se transforma em falsidade. O projeto político foi reduzido a um espaço e há um tempo já existentes. Torna-se inútil qualquer atividade de transformação. A consciência religiosa se traduz então em busca de salvação. Compreender a verdade da religião é compreender duas coisas. Primeiro, que se está condenado ao presente. A consciência o rejeita. A prática política pode transformar. Segundo, que as verdades da religião, escondidas em seu manto simbólico, poderão tornar-se verdades de amanhã.
Como a existência é tudo para o coração ela tem de ser infinita para a compreensão, assume os tributos da divindade. O que é religião?
 
O solene desvelar dos tesouros ocultos do homem, a revelação dos seus pensamentos íntimos, a confissão publica dos seus segredos de amor. Como forem os pensamentos e as disposições do homem, assim será o seu Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais, será o valor do seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento de Deus é autoconhecimento. Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo. este é o mistério da religião: o homem projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo, assim convertida em sujeito. (FEUERBACH, 1988, pág. 14).


segunda-feira, 18 de junho de 2012

A RELIGIÃO COMO PARADIGMA FILOSÓFICO



A religião toma para si todos os direitos exclusivos de Deus e usurpa (1) toda a glória da divindade e começa a administrar uma tríplice relação entre Deus, o homem e a igreja. Promessas de vida virtuosa e de vitorias, utilizando-se das práticas de moralidade, também estão incluídas no plano de Deus. Pelo menos, assim dizem uma grande parte dos líderes religiosos cristãos evangélicos, que por sinal, coincide com seus próprios planos individuais. Dois mil anos de conformidade converteram o subversivo Deus do deserto, Javé, em um Deus caseiro domesticado.
O debate no ambiente da Filosofia e da Teologia referente à religião é tão antigo quanto elas próprias. Partindo do conflito desafiador entre o conceito autônomo e crença gratuita, deram origem a princípios filosóficos e concepções teológicas. Contudo, se, no pretérito remoto, a religião pertencia aos temas centrais da reflexão filosófica, nos períodos contemporâneos e atualizados, o problema dos fenômenos religiosos é cada vez menos discutido. O homem atual elucidado foge dos assuntos religiosos. Pondera-se que tais coisas são designadas apenas ao púlpito ou unicamente são pertencentes ao domínio íntimo e reservado de cada pessoa. Com isso, abrem mãos de seu legado por direito em obter a sua livre religação com o sagrado entregando-lhes exclusivamente e permitindo que a igreja, no caso aqui, as cristãs evangélicas, decidam e influenciem como proceder no intercâmbio da mediação da suposta remissão.
E, assim, nascem os novos mediadores entre Deus e o homem — e não é Jesus Cristo, o homem—, e que são os que pensam representar a Deus e falar por Ele, sejam indivíduos, ou seja, a “igreja”, como mediadora horizontal dessa suposta “Graça”. “O problema é que a Graça só é verdadeira, quando vem de Deus pela Palavra e pelo Espírito, e atinge o coração, sem nenhuma necessidade de mediação sacerdotal humana de nenhum tipo, e, assim, gera a verdadeira liberdade em Cristo”. (CAIO FÁBIO, 2005, pag.78).

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Juan Luis Segundo, o teologo dos pobres e do reino

O HOMEM DE HOJE DIANTE DE JESUS DE NAZARÉ II/I
Sinóticos e Paulo história e atualidades

CAP 3 – A proximidade do Reino

Pretendendo apagar de antemão um mal entendido hermenêutico entre ou “político ou religioso”, ao analisar as ideologias do Jesus histórico enquanto a sua trajetória percorrida na terra, Juan Luis Segundo, aborda neste capitulo questionamentos interessantes: “Como foi que um homem comum, sem autoridade religiosa alguma começou a interessar a seus contemporâneos”? E isso sem pregar a si mesmo e “como passou através da poderosa e complexa estrutura religiosa?”. Jesus com o seu discurso, afeta concretamente a vida do homem, fazendo com que houvesse um fim político e não aparentemente a fundação de uma religião. As palavras de Jesus de Nazaré tinham profundas sugestões políticas e não duvidosas, sendo que ele anunciou mensagem religiosa em forma de chave política e dessa forma manifestou a Deus. Quanto mais políticas de mudanças se revelava, toda afinidade com acondicionamento morais, espirituais ou religiosas fossem desprendidas dos grupos humanos tornavam-nos mais religiosos. É com estas duas hipóteses que o autor trabalha ao interpretar a mensagem global de Jesus de Nazaré.

Juan Luis Segundo questiona então sobre o que consiste este “Reino de Deus”, por que e para quem estabelecer uma boa notícia e por que esse “evangelho” (boas novas) exigia mudar de mentalidade? Utiliza então os textos sinóticos a Paulo apresentando uma interpretação sobre “bem-aventuranças”, tomando como base uma exegese da obra clássica de J. Dupont. Primeiro provavelmente o texto mais coerente vem narrado na 3ª pessoa “felizes os que...”, (como em Mateus) provavelmente a quarta bem-aventurança de Q (razão das versões divergentes de Mateus e Lucas), onde contêm uma predição de perseguição futura, sendo que isso não implicava aos discípulos sobre as dificuldades que haveriam de acontecer, mas Jesus declara a situação das bem-aventuranças para transformar em virtudes e a definir o que consiste esse “Reino de Deus” que chega com a articulação que para os pobres, Ele veio para mudar esta situação e por um fim, já que não há humanização nenhuma na pobreza e sim uma relação intrínseca e positiva entre reino e situação do pobre.

Juan Luis também apresenta controvérsias nos textos sinóticos, por um lado sabendo que os textos de Lucas foram escritos para os leitores helenistas diferenciados dos outros sinóticos, por assim saber que na igreja primitiva de Lucas, no livro de Atos, a partilha dos bens que nela se praticava não poderia haver necessitados, versão que contrapõe da existência humana: pobreza e riqueza e por outro, sendo ainda que a fonte Q, apesar de ser mais próxima de Jesus do que o atual evangelho, não é garantia de que Jesus tenha pronunciado as bem-aventuranças, além do termo “pobre” ser mais pronunciado pelos cristãos do que por Jesus. Então a quem cabe o direito a este Reino, Já que até os próprios discípulos continuavam explorarados pelas ideologias religiosas e por fazer eles partes deste grupo de “pobres”? Vale ressaltar que neste tempo o “Povo da Terra” (os judeus) tinham uma sociedade hierárquica não segundo a sua fortuna ou poder político, mas segundo critérios religiosos.

Como Jesus não podia pronunciar-se a todos ao mesmo tempo, escolhe então anunciar o Reino a quem perdeu tudo, são eles os publicanos, prostitutas, doentes e aleijados, os chamados “pobres” da época, os amaldiçoados e desprezados, ou seja, os pecadores, não que haja uma unificação de pobre e pecadores, mas, os pobres são pecadores, por ser marginalizados na sociedade de Israel, a estes Ele vem trazendo para uma realidade os projetos de Deus através da Sua revelação, com isso acontece uma mudança político-social-religiosa simultaneamente com a estratégia política do Reino correspondendo a uma nova notícia de Deus no caráter religioso contra a exploração do seu povo.








CAP 4 – As Exigência do Reino
I – Conversão e Hermenêutica

Com a imanência do “Reino de Deus”, se estabelece 03 (três) grupos: os “pobres”, ou seja, os destinatários a receber as boas-novas (os convidados naturais); os que ficam na sua companhia para enviar e pregar as boas novas (os discípulos), com isso à estratégia libertadora, política e conflitiva de Jesus cria-se um terceiro grupo, os que não se levam à compaixão, os opositores, aqueles aprisionados ao mecanismo ativo da opressão e que devem receber o reino com “ai” (os ricos, os justos e representantes religiosos). Para encontrar o significado da mudança de mentalidade ou “conversão”, que de acordo com Juan Luis segundo está representada nas polêmicas (parábolas) de Jesus (Joachim Jeremias reconhece 38), existe a necessidade lógica para compreensão das exigências em possuir este reino. A interpretação é que a boa noticia da chegada do reino não é o evangelho para todos e sim para o grupo dos pobres e mostra ao mesmo tempo, com todas as dúvidas que isso traz consigo a preferência que tem por eles, por um lado, e as profundas correções que deseja introduzir, por outro, na maneira que eles têm de idealizar a Deus e a religião.

Na definição de Juan Luis, Jesus utiliza-se de parábolas para legitimar seus ataques e a defesa dos que se opõe ao reino. O primeiro grupo de parábolas inicia-se com prevenção da chegada repentina do definitivo e destrói caluniosas garantias designada por uma elite social, econômica e política que exerce forte controle sobre o conjunto da sociedade, com isso sentem-se protegidos e confiantes de que este reino não os abalará, porém Jesus os desilude, de acordo com a interpretação sócio-econômica dos textos sinóticos de Lucas como as parábolas do rico insensato e do administrador infiel e outra conflitiva político-religiosa do ladrão noturno em Mateus. O segundo grupo coloca as bem-aventuranças entre uma oposição com o primeiro, ou seja, por se acreditar garantido pelo reino e coeso pelos que se tinham excluídos da pobreza, os marginalizados de Israel (pecadores), Jesus não os idealiza se são bons ou maus, mas suas parábolas os generalizam. As citações de várias parábolas para como: a do banquete, onde “todos” são convidados a sentar-se na mesa; a do filho pródigo, na qual o pai estava a aguardar a volta do filho que estava perdido e a da ovelha, que o pastor vai ao seu encontro, escrito nos sinóticos, desperta uma intensão de conflitos entre esses grupos e estabelece que para quem o reino e faz presente, para os que sofrem e estão perdidos. Juan Luis Segundo tem como base nos textos de Lc 15:7 e Mat 18:13 “a alegria no céu será maior por um pecador que se converta do que por noventa e nove justos que não necessitam de conversão”, ou seja, o estado perdido é a causa suficiente para a alegria paterna. Jesus é radical, mas restringi-se a mostrar dois grupos opostos e não detecta ainda o mecanismo como um grupo oprime o outro.

O terceiro grupo de parábolas é qualificado por inverso do juízo de valores dos dois campos que divide Israel: justos e pecadores e é ilustrada aqui através das parábolas de Mateus (21:28-32) sobre os dois filhos, onde o primeiro representa os pecadores, que mesmo rejeitando a ordem do pai as cumpre o e segundo filho representando os justos que mesmo dando vontade de obedecer descumpre a ordem paterna. O que se vê é um paradoxo de quem na verdade é justo ou pecador. Outra polêmica está no anúncio de Lucas 4:19 numa simetria do “ano da graça do senhor” com as “bem-aventuranças” onde relata a divisão por igual dos bens e da liberdade a cada cinqüenta anos entre todos os israelitas, recobrindo assim suas possibilidades humanas, porém a isso legitima a opressão penetrando inclusive nas mentes dos oprimidos, isso faz com que o resultado da divisão do trabalho seja atribuída a opressores e oprimidos como virtude de Deus, mas o Deus de Jesus não sente assim as coisas. Com efeito, aparece o critério com que Deus julga o que é pecado: não o contrario à lei, mas o contrario ao homem (pág. 197). É a preocupação e compaixão pelo homem, e em especial pelo que sofre que Jesus estabelece a justiça, a misericórdia e a fidelidade.

Para isso Jesus indica um aparato para destruição ideológica do opressor representado no quarto grupo de parábolas que versa sobre a chave hermenêutica, onde consiste para Jesus entender o homem e pôr a sua plena humanização para que agora o homem possa compreender que a conversão (necessidade da mudança de mentalidade) fundamental para aqueles que receberam as boas notícias não passa de privilégio e sim responsabilidade, “deixa de se crer fim para se sentir meio”. Juan Luis segundo descreve que para combater uma interpretação radicalmente errônea é preciso se endereça as três primeiras parábolas, a dos talentos, em Q (Mt 25:14-30; Lc 19:12-27), a do sal (Mc 9:50; Mt 5:13; Lc 14:34-35) e a figueira de Lucas (Lc 13:6-9). As três têm um elemento comum: a importância não está nunca nas coisas em si, no que pode ser objeto de posse, e sim numa funcionalidade, num fruto que dela se espera e para isso a parábola de Jesus no contexto de Lucas sobre o samaritano, o levita e o sacerdote referente àquele que caiu em poder dos ladrões é muito bem apresentada como o mais importante do que aquele que a quem se deve amar é aquele em que ama de verdade. A proximidade (sentido da frase do original “amar o próximo”) não é conseqüência da lei e sim premissa, consiste em uma inclusão mútua entre pessoas ou grupos. Jesus então estabelece uma radical mudança de mentalidade no sistemático ideológico religioso opressor introduzindo não só que as tradições legalistas substituíram os fidedignos mandamentos de Deus, mas que até estes não estabelecem a vontade de Deus geradora de valores morais. Deus não alcança ao homem com receitas morais pré-estabelecidas, ou seja, só quem tem intenções baseados no amor entende corretamente o sentido benéfico dos mandamentos a fim de converter suas vítimas em sujeitos conscientes e ativos na luta.


CAP 5 – As Exigência do Reino
II – Profetismo e Conscientização

A multiplicidade e a maneira indefinida do que se esconde sob o título da construção do “Reino de Deus”, faz com que exista uma contradição entre duas leis. Os pobres e pecadores são convidados por Jesus a fazerem parte do seu discipulado, já que o reino lhes pertence, em contra partida, oferece-lhe um julgo mais leve, ou seja, estarão sob a lei de Jesus que analogicamente confronta com “o que diz na lei” dos escribas e fariseus, fazendo uma exigência muito mais pesada: “eu, porém vos digo”, por este motivo os três sinóticos oferecerem depoimentos evidentes de um conflito político-religioso que opõe Jesus e os pecadores das autoridades judaicas.

Fazendo uma exegese dos textos de Marcos, Juan Luis abre hipóteses de trabalho ao se referir aos grupos já citados anteriormente. Primeiramente discursa sobre os chamados oprimidos e pecadores (povo) e deles nada é exigido diferente do grupo dos opressores. Conseguinte o outro grupo dos oprimidos e pecadores, agora colaboradores (os discípulos), Ele exigirá o que a missão sugere qualidades proféticas com toda prudência e compreensão. Porém o medo de Jesus é que seus discípulos não entendam as idéias de oposição Dele ou entendam apenas como religiosas, por este motivo Jesus oferece aos discípulos a parábola do semeador e do fermento (dado somente aos discípulos), encontrados nos sinóticos em chave política, já que esse era o meio utilizado por Jesus para o grupo de opositores do reino para que não se convertessem e fossem perdoados, sendo que os discípulos não necessitavam de conversão e sim abrir aos olhos para compreender o segredo do reino. Neste ponto é indispensável ressaltar que Jesus não estava dando aula de religião e sim desmascarando um conflito que se aparentava ser religioso pelos seus opositores, que visavam dominar e explorar outros homens, citado por Juan Luis Segundo da obra de Joachim Jeremias (Lês Paraboles”, pág. 16).

Jesus prepara a chegada do reino utilizando dois elementos na atividade em respeito aos pobres: com prodígio e métodos em instruir e praticar com clareza sua missão. Usou de poderes de modo muito especial para com os pobres e necessitados para anunciar de modo fidedigno a presença do reino de Deus, mas não sua vinda propriamente dita do reino e sim seu anúncio em forma de sinais, sinais estes que tem uma coerência entre valores do reino que chega e os valores que visivelmente procuram os interlocutores, prováveis adversários de Jesus com os milagres que eles solicitam, para que assim apareça na qualidade significativa o elemento decisivo na relação existente entre Jesus dos milagres e os pobres que é o segredo messiânico, ou seja, está mais relacionado com o trabalho de conscientização através dos milagres do que uma dúvida na consciência que Jesus tem de si mesma. Os sinais do reino são benefícios reais, incontestáveis enquanto tais para o que recebem. O segundo elemento é apresentado de forma a instruir as suas parábolas e Jesus mediante ao método messiânico pretende manter distância para poder ensinar e mostrar que ele é o sinal de alegria para as multidões de Israel








CAP 6 – A VINDA DO REINO

Neste capítulo Juan Luis Segundo determina com certa prudência dados mais fidedignos de que se dispõem os sinóticos e questiona, será que Jesus não se enganou ao anunciar que o reino de Deus já se tinha iniciado em sua geração? Ou pelo menos é essa a impressão, pois as desgraças continuaram com os “felizes os que...”, enquanto existiam mais famintos e os ricos continuaram a triunfar e multiplicar mais esfomeados até hoje, a menos que se trate de uma prosperidade e fartura ultramundanas. Juan Luis descreve que no livro de Mateus há citações de Jesus usando três expressões diferentes para reino, são eles: “o reino”, “o reino de Deus” ou “o reino dos céus”. O certo é que ao estar nesta época de busca pelo Jesus histórico deve-se fazer em excesso de perspectiva, pois nem mesmo a Igreja Primitiva não pode ao que parece fazê-lo de maneira distinta, embora com mesmo sentido.

E tomando esse rumo principia-se pela aparição de dois personagens, João Batista e Jesus, todavia o primeiro evangelho apresenta discordância entre ambos os profetas no sentido ideológicos do que significa concretamente essa proximidade. É o que se vê no contexto de Mateus e Lucas referente ao estilo de vida, onde um não bebe e não come, enquanto o outro, é beberrão e comilão; João prega a iminente manifestação visível da ira de Deus e é quem melhor representa a as idéias apocalípticas da época, combinando “reino de Deus”, juízo e catástrofe cósmica. O Jesus aparenta sintomas de individualidade na sua pregação de acordo com Mateus 5:2, assim sendo é que a proclamação de Jesus caracteriza-se como de uma alegria, a boa-notícia, relacionando o dia de Javé com a vinda do seu reino. Juan Luis Segundo dispõe de textos no livro de Lucas (3:11, 3:13 e 3:14) que entre os sinóticos é o único com versão detalhada do batista referente aos “frutos dignos de uma mudança de mentalidade”, onde é visto com muito mais realismo. A multidão: ele sugere a divisão de túnicas e alimentos; Aos publicanos: não exigir mais do que a taxa marcada. A uns soldados: não praticar torturas nem chantagens, contentai com seu soldo. Apontando assim a situação grupal de cada um e a sua conversão central. Conclui-se que Jesus foi muito mais político do que escatológico e era essa a necessidade dos dois grupos de Jesus, a instalação do reino de Javé do que o juízo apocalíptico, embora nenhuma imagem da por afirmada a presença atual do reino em forma completa sobre a terra, principalmente se analisar o tempo do verbo das bem-aventuranças, com exceção da primeira, as outras usam o verbo no futuro, além da ausência do verbo “ser” dos originais aramaicos.

Os homens colaboram com essa vinda e isso é o menos que se pode dizer quanto à intervenção que se exige deles, pois suas necessidades são compreendias no quadro global, porém a pergunta que Juan Luis Segundo faz é: esperou Jesus a chegada, durante sua vida, do reino de Deus com poder? De acordo com Juan Luis, para os exegetas atuais a resposta é afirmativa. Então baseando-se em três elementos relaciona a seguir. O primeiro situado nos três sinóticos “Em verdades vos digo: alguns dos presentes não sofrerão a morte até que vejam chegar o reino de Deus” (Mc 9:1); O segundo constituído por um pequeno apocalipse, também dentro dos sinóticos, que aparece com uma pergunta desconcertada dos discípulos pelos sinais e a resposta é: “a vinda do Filho do homem sobre as nuvens com grande poder e majestade” (Mc 13:26), porém os evangelistas acrescentam um paradoxo enigmático que por um lado ninguém sabe, nem os anjos, nem o Filho do homem, mas somente o Pai, o dia e a hora. Por outro, o tempo está tão próximo que Jesus pode dizer que em verdade eu vos digo, não passará esta geração antes que tudo isso aconteça. O terceiro elemento aparece ainda que não seja comum aos três sinóticos (pelo fato de Lucas, no intuito de extinguir o que lhe pareça desrespeito, o exclui) como um grito de surpresa e desorientação com que Jesus morre na cruz: “meu Deu, meu Deus, porque me abandonastes?” (Mc 15:34 e Mat 27:46).

Então conclui Juan Luis que o reino não chegou “com poder” enquanto durava a geração que escutou Jesus profetizar, mas de acordo com Paulo na sua carta aos Romanos, Jesus foi “constituído Filho de Deus com poder, por sua ressurreição dentre os mortos” (Rm 1:4), sendo assim é transparente a admissão que jesus esperou em vão durante sua vida essa irrupção com poder do reino de Deus, mas comprova que sua comunidade foi compreendendo gradualmente que com sua ressurreição dentre os mortos ela se tinha realizado. Jesus teve um destino humano, concreto e histórico, trabalhou com mãos de homem na construção do reino que empregou para nos revelar o Pai através da iminência concreta trazendo a marca de uma história que não volta atrás.

(7) Anexos da primeira parte
1 - JESUS RESSUSCITADO

Ficando o tema mais concentrado no livro “Cristologia” o vol. II/II desta série, a ressurreição de Jesus constitui um fato verificável da história da Igreja nascente. Porém inserindo no contexto do Jesus histórico, toma-se como instrumento os próprios evangelistas, que partindo da idéia em confiar que os discípulos de Jesus são sinceros ao narrarem terem visto Jesus depois de sua morte. A questão histórica da aparição do Ressuscitado concentra-se de todo relato Paulino, além de João que se une aos sinóticos. Comprova-se que as parábolas atribuídas a Jesus parecem indicar mais um ensinamento e assim estabelecer um novo grau de compreensão alcançado pelos discípulos (Lc 24:45-46). Porém esses têm dificuldades em distinguir Jesus no ressuscitado, prova de que a nova forma material não permitiu econhece-lo.

De fato o gênero literário dos relatos evangélicos das aparições é muito implícito, mas confirmam a fé existente e ai passa de “crer” a “ver”, ou seja, essa fé diante do escândalo da cruz, Jesus aparece ressuscitado, mas somente para aqueles que creram antes da morte de Jesus. É como se ecoasse em novo plano a advertência de Jesus “...convertei-vos e crede na boa-notícia”, apesar de não haver uma só que seja testemunha imparcial. As narrações sobre as aparições de Jesus não são históricas, mas isso não quer dizer que não sejam verdadeiras. Sua verdade é mais que histórica e depende, por isso da fé, é uma verdade sobre a história, pertence ao plano escatológico no qual se julga e verifica o sentido da história vivida.

Por isso diz-se que a realidade escatológica toca no ponto da existência histórica dos discípulos, aos lhes proporcionar experiências do resultado de opiniões diferentes que significavam, contra a morte e o nada, os valores pregados e praticados por Jesus. Tangencialmente não estabelece referência alguma a uma diminuição de importância significativa, refere-se, isso sim, ao sutil e oculto de sua entrada histórica.



(8) Anexos da primeira parte
2 - ALGO MAIS SOBRE A CHAVE

Chega o momento, também lógico, em que a chave política parece esgotar-se e apelar a outro tipo de interpretação para dar conta dos fatos. De acordo com os evangelhos, o conflito provocado por Jesus chegou a um ponto em que as forças pareciam tão equilibradas que, tanto um grupo quanto o outro, se temiam ou se previam a vitória do rival, por este motivo, de acordo com a tradução de Lucas (Lc 24:18-21), os discípulos esperavam a liberdade de Israel, se referindo ao poder que Jesus revelava, e isso era demonstrado por Jesus, porém, em favor da compaixão que ele tinha pela multidão para alimentá-los e não para dar estrutura mais estável. Juan Luis diz que apesar das incontestáveis urgências que se encontra em Jesus, sua ação interpretada em chave política, aponta muito mais para uma eficácia a longo prazo.

Dentro das suposições, é possível que Jesus pensasse ter muito tempo para continuar com sua política conscientizadora à longo prazo em favor dos pobres e do reino; é possível que contasse com uma poderosa intervenção do próprio reino para assegurar esse prazo. É ainda mais provável que fosse surpreendido pelo momento crítico que levou a morte e pelo silêncio de Deus. Não se sabe, mas isso não invalida a chave global do seu ministério, nos obrigando a substituir por outra. O certo é que os numerosos conflitos que Lucas nos relata a propósito da Igreja primitiva não se parece em nada ao conflito gerado, segundo o mesmo Lucas, por Jesus de Nazaré.

Diz-se "ainda" porque esta chave política, de acordo com Juan Luis Segundo, foi a chave de Jesus para dar sentido à sua ação: o Mestre da Galiléia entendeu a si mesmo como portador de uma mensagem transformadora da realidade, uma mensagem, portanto, política (a "boa nova aos pobres"). Paulo, ao perceber que esta modificação profunda não se produzia, viu-se obrigado a explicitar o conteúdo de sua fé cristã em termos de uma chave antropológica. A mudança que ocorre a partir da ressurreição de Jesus na história afeta em primeiro lugar o ser humano. Esta chave antropológica, pós-pascal, perfila-se a partir da tomada de consciência da escatologia paulina, que torna possíveis e necessárias estas duas afirmações: “o mundo muda” radicalmente para o homem graças a Cristo e o mundo não tem mudado em nada com Cristo. “O Reino já chegou com poder e o Reino não chegará jamais com poder na história”.

O Novo Testamento, incluindo os três sinóticos, mostra que o sentido de Jesus vai em busca de expressões criativas para cada contexto. Seguir Jesus não é sacralizar a ideologia que ele usou e forçar as circunstâncias infinitamente variáveis ao escutar as mesmas palavras e presenciar idênticos acontecimentos. Trata-se de “criar” evangelhos para expressar a fé de Jesus com as ideologias que melhor possam veiculá-las aqui e agora. O NT é o melhor exemplo de uma coleção de “chaves” diferentes em torno de uma mesmo personagem histórica: Jesus de Nazaré. Todas elas são chaves humanas, porque Deus não tem outra linguagem para falar ao homem.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

ANÁLISE E DISCUSSÃO SOBRE A QUESTÃO DO PECADO - parte II

Observo que diligentemente as religiões cristãs evangélicas em sua história á causarem aberrações de caráter moral e repugnante, quando resolveram a tarefa de aplicarem a moral a partir da natureza humana. Por conseguinte, religiões tão pouco tem de planejarem isto, não devem servir do universo para deduzirem deveres, ela não devem conter códigos de leis.

A Teologia da Libertação que teoricamente deveria ensinar a Igreja a tomar partido pelos pobres e humilhados deste mundo, deveria está mais preocupada com a sociedade que esta corrompida não só na sua periferia, mas em toda a sua substância pela exploração desumana dos pobres pelos ricos, pela injustiça institucionalizada, o pecado social e o egoísmo.

As igrejas cristãs evangélicas contemporâneas admitem, de modo dissimulada, sua categorização como religião de comércio através do que os estudiosos ensejam chamando de “teologia da prosperidade”. Não se restringe a pregar a “salvação” somente com um sentido escatológico, o que era pecado antes hoje não é mais, havendo assim a necessidade de refazer uma nova leitura da questão do pecado.
Dentro da Teologia contemporânea a esperança é o alicerce fundamental e imprescindível para a prática de uma ética pela vida, neste caso posso fundamentar e refletir na teologia de Jürgen Moltmann, que enfatiza a realização da esperança escatológica através da justiça, da humanização do ser humano, da socialização da humanidade e da paz para toda a criação. Por causa da esperança, os seres humanos não capitulam diante do imutável e se mantém como seres insatisfeitos e inquietos num mundo injusto e não redimido. A fé é dependente da esperança, afirma, lembrando “o pai da igreja, Crisóstomo: Não é tanto o pecado que nos afunda na perdição, mas sim a desesperança”.
A contemporaneidade desvenda em sua tragédia que, a noção de pecado longe de ser uma noção ultrapassada ou, uma questão do sujeito consigo mesmo - auto-erotismo capital -, diz respeito a uma realidade que concerne primeiramente ao Outro. Falar de pecado é ser remetido imediatamente à existência do Outro. Apesar de não acreditar que as escrituras fossem à palavra de Deus inspirada e que ninguém poderia estar protegido de nada além que a sua experiência pessoal, Schleiermacher, seguramente mantinha que cada pessoa tem uma consciência de Deus que insufla um senso de dependência para com algo para além de si mesmo, e que uma vez que o homem é totalmente condicionado a Deus, o pecado procede sempre que a pessoa se debate por independência.